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segunda-feira, 2 de março de 2015

RIFIFI (Du rififi chez les hommes -1955) - REBOBINANDO CLÁSSICOS



FICHA TÉCNICA

Outros Títulos: Rififi entre los hombres (México) 
Guld på gaden (Dinamarca) 
Rififi a férfiak közt (Hungria) 
Nattens ulver (Noruega) 
Pais: França
Gênero: Filme Noir, Crime, Suspense
De Jules Dassin, França, 1955.
Roteiro Jules Dassin, com a colaboração de Auguste Le Breton e René Wheeler
Baseado no romance de Auguste Le Breton
Diálogos Auguste Le Breton
Fotografia Philippe Agostini
Música Georges Auric
Produção Pathé Consortium Cinéma, Indusfilms, Société Nouvelle Pathé Cinéma, Primafilm. 

ELENCO

Jean Servais (Tony le Stéphanois), Carl Möhner (Jo), Robert Manuel (Mario Ferrati), Jules Dassin (Cesare/César), Janine Darcey (Louise), Marcel Lupovici (Pierre Grutter), Pierre Grasset (Louis Grutter), Robert Hossein (Remi Grutter), Dominique Maurin (Tonio), Magali Noël (Viviane), Marie Sabouret (Mado), Claude Sylvain (Ida Ferrati)

PRÊMIOS

Sindicato Francês dos Críticos de Cinema, França
Prêmio de Melhor Filme (Jules Dassin)
Festival Internacional de Cannes, França
Prêmio de Melhor Direção (Jules Dassin)
Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York, EUA
Prêmio Especial (Jules Dassin)

INDICAÇÕES

Festival Internacional de Cannes, França
Prêmio Palma de Ouro (Jules Dassin)

SINOPSE

Depois de passar 5 anos na prisão, Tony volta à mesa de jogo onde, após perder uma boa quantia, recorre a Jo, um jovem que ele ajudara anos atrás.

Jo vai ao seu encontro e, em seguida, o leva a um Café, onde se encontram com Mario.  Este expõe um plano para roubarem umas jóias que se acham  na vitrine da "Mappin & Webb Ltd".  Na ocasião, Tony diz que não contem com ele, pois já se acha velho para essas coisas. Em seguida, pede a ajuda de Jo para localizar sua mulher, Mado, pois perdera o contato com ela desde sua prisão.  Por telefone, Jo descobre que ela agora trabalha no cabaré "L'Âge d'Or", em Montmartre, controlando as mulheres de lá, e que vive com o proprietário do estabelecimento, Pierre Grutter.

Tony vai até o local, onde encontra Mado em companhia de um cliente.  Ele lhe pede que o acompanhe até seu apartamento.  Lá, depois de exigir que ela lhe entregue todas as jóias que está usando, dá-lhe uma surra e a expulsa.  Em seguida, telefona para Jo, dizendo-lhe que resolveu participar do roubo da joalheria, desde que aceitem algumas modificações no plano inicial.

Em reunião com Jo e Mario, Tony explica que, ao invés de limparem a vitrine da joalheria, eles devem acessar o cofre onde se encontra a maior parte das jóias.  Os dois concordam com o plano, bem mais audacioso.  A seguir, Mario entra em contato com César, um grande especialista em arrombar cofres.

O grupo inicia os preparativos para o grande roubo, anotando os horários do movimento da rua, tirando moldes para confecção de chaves e analisando a melhor forma de neutralizar o sistema de alarme da joalheria.  Na noite combinada, entram no prédio, imobilizam os zeladores e iniciam as operações para acessarem as jóias a serem roubadas.  Trabalham durante toda a madrugada e, ao amanhecer, saem do local deixando o cofre vazio.

Embora tenha sido acordado pelo grupo que nenhum deles se exporia nos primeiros momentos, César vai à noite ao "L'Âge d'Or", onde presenteia Viviane com um anel caríssimo que escondera em seu bolso quando da limpesa do cofre. Os jornais estampam em suas manchetes o roubo ocorrido na "Mappin & Webb Ltd".  Pierre associa a notícia ao presente recebido por Viviane e, através dela, chega a César.  Pressionado, este entrega Mario.  Os capangas de Pierre vão à casa de Mario onde, sob pressão, sua mulher telefona para Tony, chamando-o.  Ao chegar ao local, Tony encontra Mario e a mulher mortos.  Ele vai, então, ao "L'Âge d'Or" à procura de Pierre.  Lá, encontra César amarrado e o mata por ter delatado o grupo.

Enquanto isso, os homens de Pierre raptam Tonio, filho de Jo.  Ao tomar conhecimento do rapto, Tony pede a Jo e à sua mulher, Louise, que não façam nada, pois ele vai encontrar e trazer de volta o pequeno Tonio. Através de Mado, ele consegue chegar ao cativeiro, onde mata o capanga de Pierre e resgata o garoto.  No caminho de volta, pára num Café para telefonar para Jo, comunicando-lhe que Tonio já se encontra com ele.  Ao atender ao telefonema, Louise informa-lhe que Jo saiu com o dinheiro do resgate, exigido por Pierre.Deixando Tonio com a proprietária do Café, Tony retorna ao cativeiro, onde encontra Jo morto.  Trava-se, então, um duelo entre ele e Pierre, resultando na morte deste último.  Bastante ferido, Tony consegue apanhar o garoto e dirigir até a casa de Louise, morrendo logo após estacionar o veículo.

ANÁLISE

Na minha modesta opinião, um dos 100 melhores filmes do cinema, e um dos 5 melhores noir.

É a história, ou melhor, a radiografia de um grande assalto, desde os antecedentes, os preparativos, até tudo o que ocorre depois. É da mesma linhagem nobre, portanto, de outros belos filmes. John Huston fez O Segredo das Jóias/The Asphalt Jungle, em 1950. Depois veio este Rififi, de 1955. Stanley Kubrick fez O Grande Golpe/The Killing, em 1956. Henri Verneuil fez Os Sicilianos/Le Clan de Siciliens, em 1968. E, em 1970, Jean-Pierre Melville fez O Círculo Vermelho. OK, no filme de Kubrick não são jóias, é dinheiro vivo, mas o princípio, em todos eles, é o mesmo: a anatomia de um crime, de um grande assalto.

O próprio Dassin voltaria ao tema em Topkapi, de 1964 – e não pode haver dois filmes sobre roubo de jóias mais diferentes entre si do que Rififi e Topkapi. Este último é colorido, alegre, brincalhão. O planejamento, o roubo, tudo é uma grande brincadeira para seus participantes. Rififi é o oposto: é preto-e-branco, é noir até a medula, é tenso, duro, pesado.

Dassin havia sido posto na lista negra do macarthismo, acusado de comunista, ou filo-comunista, depois de ter feito elogiadíssimos filmes noir, barra-pesadas: Brutalidade, Cidade Nua, Mercado de Ladrões, Sombras do Mal. Exilou-se em Londres, depois em Paris. Paris é uma personagem importante de Rififi. Há diversas seqüências passadas nas ruas da maravilhosa cidade, nas grandes avenidas da área central, em ruelas de bairros mais afastados. Diversas vezes a câmara, colocada em um carro, vai percorrendo a paisagem parisiense.

O protagonista, Tony le Stéphanois (Jean Servais, então um dos maiores astros do cinema francês), um homem aí de uns 50 e tantos anos, acabou de passar cinco anos preso. Desfruta os primeiros dias de liberdade jogando baralho num quarto fechado nos fundos de um bar, fumando muito. Quando o dinheiro acaba, pede socorro ao amigo Jo (Carl Möhner), antigo colega de profissão, agora casado com Louise (Janini Darcey) e pai apaixonado de um filhinho de uns cinco, seis anos, Tonio (Dominique Maurin).

Jo e seu amigo italiano Mario (Robert Manuel) planejam roubar uma grande joalheria, próxima da Place de la Concorde, o lugar que reúne as mais elegantes joalherias do mundo. O plano deles é, durante o dia, na hora do almoço, de pouco movimento nas ruas, fazer um corte no vidro da vitrine e roubar duas ou três peças, rapidamente. Querem que Tony participe do golpe, mas ele a princípio não se interessa, diz que está velho, cansado.

Depois de encontrar sua mulher com outro, o anti-herói quer realizar o maior assalto da história. O interesse de Tony, naquele momento, é rever sua mulher, Mado (Marie Sabouretm na foto). Fica sabendo que Mado agora está com outro homem, Pierre (Marcel Lupovici), dono de um cabaré, quase um prostíbulo, na região de Montmartre. Vai até lá, encontra Mado, leva-a para o pequeno apartamento onde está morando e…

Não, melhor não revelar o que se passa ali; apesar de estarmos ainda bem no início do filme, é uma seqüência chocante, impressionante, e revelar o que se passa nela seria um spoiler. Mas é necessário dizer que é extremamente bem filmada, essa seqüência noir, cruel – toda feita sem explicitude alguma, mostrando os fatos sem os mostrar às claras. Depois do reencontro com Mado, Tony muda de idéia. Agora não só aceita participar do roubo à joalheria, como quer que seja não um rápido furto de algumas peças: quer que seja um grande assalto, para levar as jóias mais preciosas, as que estão guardadas num grande cofre.
Para um trabalho de tal vulto, será necessário mais um homem, e Mario tem o nome certo: Cesare, também italiano, um homem que tem a fama de que nenhum cofre resiste a ele – e ele não resiste a nenhuma mulher. Cesare é interpretado pelo próprio Jules Dassin, que se escondeu – como se isso fosse possível – sob o pseudônimo de Perlo Vita.

A sequência do grande roubo, que está bem na metade do filme, dura mais de 25 minutos, e é extraordinária, antológica. São mais de 25 minutos sem uma única palavra, em silêncio quase total. A música de Georges Auric pára no momento em que o assalto se inicia. Vemos, em silêncio, todos os detalhes da ação. Ouvimos apenas os ruídos produzidos pelas ferramentas – ruídos surdos, suaves, para que o roubo não seja descoberto. O assalto a uma joalheria da Place de la Concorde de O Círculo Vermelho/Le Cercle Rouge, que Jean-Pierre Melville faria em 1970, se parece com esta seqüência impressionante de Rififi, feito 15 anos antes.

Os acontecimentos que se seguem ao assalto, a trama, a história, é tudo um brilho.O livo que deu origem ao filme popularizou a palavra rififi.

Rififi se baseia no livro que tem o mesmo título do filme no original, Du Rififi Chez les Hommes, e que havia sido lançado em 1953, dois anos antes de o filme ser produzido. Foi o segundo livro publicado por Auguste Le Breton.

Le Breton nasceu em 1913; seu pai foi morto na Primeira Guerra em 1915. Abandonado pela mãe, foi parar em orfanatos, ou “centros de educação vigiada” – autênticas prisões, quase campos de concentração. O primeiro livro que publicou, Les Hauts Murs, os muros altos, era exatamente um relato autobiográfico sobre sua trágica experiência nesses “centros de educação vigiada”. O livro deu origem a um filme excelente, duríssimo, barra-pesadíssima, dirigido por Christian Faure, de 2008, que no Brasil teve o título de Entre os Muros da Prisão. Depois de passar anos naqueles orfanatos-prisões, tinha tudo para virar um marginal, um bandido. Virou escritor. Escreveu cerca de 70 livros, muitos deles histórias policiais, com gangsteres, bandidos de diversos tipos, deserdados da fortuna.

Diversas de suas obras foram adaptados para o cinema, depois deste Du Rififi Chez les Hommes – em que ele colaborou como co-roteirista e autor dos diálogos. Le Clan des Siciliens, obra de 1967, foi transformada em um ótimo filme por Henri Verneuil em 1969, que aqui teve o título de Os Sicilianos. Le Breton morreria, aos 86 anos, em 1999. Tem-se que foi Le Breton que criou a expressão rififi – criou, ou no mínimo foi o primeiro a divulgá-la na linguagem escrita. A partir do livro, e do filme, palavra se universalizou. Está no Aurélio como sinônimo popular de “rolo”. Para o filme, foi composta uma canção que apresentava a palavra “rififi” às pessoas mais cultas, que não a conheciam. “La Chanson Le Rififi”, de M.Philippe-Gérard e Jacques Larue, é cantada no cabaré-inferninho de Pierre, o novo marido de Mado, por uma das moças que trabalham lá, Viviane (interpretada por Magali Noël, na foto, num papel que transpira sexo).

Cesare, o arrombador de cofres importado da Itália para fazer o serviço com a quadrilha, irá se apaixonar perdidamente por Viviane. E o advérbio perdidamente é literal. Muito do que acontecerá após o grande roubo terá muito a ver com a paixão do italiano que não resiste a uma bela mulher pela cantora do cabaré – assim como tem a ver pela paixão (e ódio) de Tony por Mado.

Jules Dassin ganhou o prêmio de melhor diretor por Rififi no Festival de Cannes de 1955. E o filme ganhou todos os elogios possíveis da crítica no mundo inteiro. Diz Georges Sadoul, em seu Dicionário de Filmes: “A seqüência que fez, legitimamente, o sucesso do filme foi aquela quase documentária, da perfuração do teto e do cofre-forte, sem que se pronunciasse uma só palavra, o que tornou tanto mais eficiente a montagem dos ruídos.” Sadoul foi muito econômico. Já o Guide des Films de Jean Tulard se derrama – diz que se poderia falar sobre o filme durante horas, e se estende longamente sobre ele. Alguns trechos:

“Du Rififi Chez les Hommes é o filme da renovação. Renovação do thriller psicológico à francesa, ele demonstrou que a arte e a ladroagem podem resultar num bom casamento. Nova arrancada após uma travessia do deserto de quatro anos de Jules Dassin, caçado pelos estúdios americanos no macarthismo, acolhido na França por H. Bérard, um produtor inteligente. Se os diálogos e os atores fazem de Rififi um filme tipicamente francês, é no entanto uma oportunidade de Dassin filmar um de seus thrillers neo-realistas de que ele tinha a receita em Hollywood: a mesma atmosfera sombria e pessimista, o mesmo sentido do absurdo… Simplesmente, as ruas (talentosamente filmadas) de Paris ocupam o lugar daquelas de Nova York ou San Francisco. Retorno ao primeiro plano igualmente de Jean Servais (na foto abaixo), na época relegado a um relativo esquecimento. Rosto devastado, voz cavernosa que deixa passar com reticência entre dois lábios contraídos, ele é a imagem viva do fracasso.”

A imagem viva do fracasso! É exatamente isso que passa Jean Servais (1910-1976), mais um de tantos grandes nomes das artes francesas nascido na Bélgica – como Jacques Brel, Georges Simenon.

E agora, um pouco do belo texto de uma americana, Pauline Kael: “Um quarteto de ladrões arromba uma joalheria e durante uma tensa meia hora os vemos trabalhar, em silêncio. Parece um documentário muitíssimo hábil sobre como desligar um alarme contra arrombamento e abrir um cofre, e isso é absorvente do começo ao fim, porque vemos os assaltantes como artesãos e celebramos o trabalho de equipe, a elegância, o triunfo deles. Por ironia, vemo-nos simpatizando com seu cansaço honesto após a empreitada desonesta. Daí em diante, o filme, feito na França pelo diretor americano Jules Dassin, segue a tradição de Scarface, Inimigo Público e O Segredo das Jóias (e de Macbeth, anterior a eles), levando as figuras trágicas, acuadas (agora símbolos de nossos próprios instintos anti-sociais), a um acabamento cadavérico. Ao longo do percurso, Dassin mantém as coisas ativamente perversas, com aparições instantâneas de prostitutas do submundo, drogados e um assassino, um seqüestro e um (aqui corto fora uma informação que considero spoiler). Rififi é o avô de uma enxurrada de filmes de suspense sobre como desmontar sistemas de segurança e invadir bancos e museus, mas sua distinção particular está no tom sórdido.”

O livro 501 Must-See Movies diz que Rififi foi fotografado lindamente: “Nenhum estúdio poderia substituir aquelas ruas, cafés e bares. A fotografia preto-e-branca cria um estilo maravilhoso e captura o clima da paris dos anos 50. O assalto em si é um grande exemplo da arte de fazer cinema.”
É isso aí. Um grande clássico, que merece todos os elogios que recebeu.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

ÊXTASE (1933) - REBOBINANDO CLÁSSICOS


Êxtase/Ekstase

De Gustav Machatý, Tchecoslováquia-Áustria, 1933.
Com Hedy Kiesler (mais tarde Hedy Lamarr), Aribert Mog, Zvonimir Rogoz
Roteiro Frantisek Horký, Gustav Machatyú, Jacques A. Koerpel
Baseado no livro de Robert Horky
Fotografia Hans Androschin e Jan Stallich
Música Giuseppe Becce
Produção Elektafilm.

Êxtase, feito em 1933, entrou para a história por causa do escândalo: foi o primeiro filme exibido no circuito comercial normal a mostrar um nu frontal. Um precursor, assim, dos filmes que muito mais tarde mostrariam cenas de sexo explícito, ou quase.

Mas, mesmo abstraindo esse fato, ainda hoje, 76 anos e tanta "explicitude" depois, o filme ainda impressiona pela força e pela beleza das imagens. Não é pouca coisa.

Não que se possa vê-lo como uma narrativa normal, como, por exemplo, podemos ver hoje, sem qualquer estranhamento após a passagem de sete décadas, Aconteceu Naquela Noite, que Frank Capra fez apenas um ano depois, 1934, ou Luzes da Cidade, de Chaplin, de 1931, ou Ricos e Estranhos, de Hitchcock, também de 1931. Não, de forma alguma. Êxtase não tem uma narrativa normal, padrão – e vê-lo hoje provoca, sim, muito estranhamento.

Embora o cinema tivesse aprendido a falar em 1927, e o filme seja já do período sonoro, tem pouquíssimos diálogos – raríssimos. O diretor optou por uma narrativa diferente, diferenciada, longe do realismo, vanguardista. Toda a ação é acompanhada por música; é de fato como se o diretor tivesse querido criar um poema sinfônico. No início da produção, o título do filme era Symphonie der Liebe, Sinfonia do Amor – depois é que se optou por Ekstase.

Então, o fato é que é preciso um certo distanciamento, ou bastante distanciamento, para ver Êxtase hoje. É preciso entender que estamos vendo um filme que em 1933 era vanguardista – e não é muito fácil ter essa perspectiva de entender que é algo do passado algo distante que se pretendia muito avançado.

A trama é um fiapinho mínimo, uma história de nada: jovem, bela e rica mulher, Eva, casa-se com homem bem mais velho; não há paixão entre eles, não há sexo, e por isso Eva retorna à casa do pai; perto dali vai conhecer outro homem e se apaixonar por ele.

A história não importa tanto. Importam as imagens, e a música que as acompanha, realça, sublinha. Reflexos e sombras – tudo é ponteado por reflexos e sombras. Planos gerais alternam-se com grandes close-ups. Há várias seqüências em que há uma montagem rápida de quadros estáticos, sem movimento de câmara: paisagens, detalhes de coisas da natureza, plantas, folhas, animais, estátuas, muitas pequenas estatuetas, óculos deixados sobre uma mesa, um colar. O visual é tremendamente impressionante, é de fato muito à frente de seu tempo.

Só não é mais impressionante do que a forma com que o diretor aborda o sexo, o desejo sexual, no ano da graça de 1933. Não há nada propriamente explícito, é claro. A própria seqüência famosérrima, histórica, em que Eva aparece nua seria hoje incapaz de ofender a velhinha mais beata da paróquia. Eva monta em seu cavalo, galopa até um lago, nada nua; sai do lago quando seu cavalo se distancia dela, e então durante alguns minutos anda nua pelo campo; não chegamos a ver pelos pubianos; vemos os seios dela, mas de longe; as únicas tomadas em que ela aparece mais próxima com os seios à mostra são bem rápidas.

A questão não é a explicitude. Explícito, assim, tipo Império dos Sentidos, ou Instinto Selvagem,, ou como Lady Chatterley da francesa Pascale Ferran, que é claro e às claras mas está longe do pornô, disso não há absolutamente nada, neste Êxtase.

A questão é a intensidade – ainda que implícita. Há seqüências intensamente sensuais, provavelmente mais intensamente sensuais que muitos filmes abertamente pornográficos. A própria seqüência histórica do banho no lago é assim: enquanto Eva está tomando banho nua no lago, sua égua se sente atraída por um cavalo que está também no campo; os dois animais se aproximam, e a câmara vai fazer grandes closes deles, as veias saltadas de excitação. E são magníficas as caras e bocas que Eva faz diante da aproximação do homem que em seu socorro leva-lhe a roupa que ela havia deixado sobre sua égua – de repúdio, repulsa, afasta-te, Satanás, misturadas às de venha, venha, venha.

Ainda não será desta vez. Será um pouco mais tarde – e a seqüência em que Eva reencontra o homem, na casa dele, é extraordinária. Nenhuma explicitude, de forma alguma – nenhuma nudez, inclusive. Mas são magníficas, colossais, a força, a intensidade que o diretor consegue imprimir às tomadas, super-big-close-ups do rosto de Eva. Há dois ou três closes do pescoço e do colo dela – arfante, ofegante. Vem o beijo, aproximam-se, estão deitados. Cai ao chão o colar de pérolas – o casal está vestido, comportadíssimo, mas é uma das mais gloriosas cenas de sexo da história do cinema.

Chamava-se Hedy Kiesler, a atriz que faz essa Eva, a grande precursora das cenas de sexo do cinema. Hedy Kiesler era o nome artístico; chamava-se mesmo Hedwig Eva Maria Kiesler. Estava na flor dos 19 aninhos de idade – nasceu em 1913, em Viena, então capital do Império Áustro-Húngaro, se não me falham a memória e os parquíssimos conhecimentos de História. Tinha largado a escola para começar a carreira de atriz em 1930, e, antes de Êxtase, tinha feito filmes checos e alemães. Neste filme aqui, demonstra aquela capacidade rara que algumas atrizes têm de mostrar várias caras diferentes. Tem pelo menos umas dez caras, ao longo do filme. Conta-se que seu primeiro marido (foram seis), um industrial milionário do ramo de munições, Fritz Mandl , tentou comprar, para destruir, todas as cópias do filme.

Hedwig Eva Maria Kiesler fugiu dele. Iria virar Hedy Lamarr, a partir de 1938, ano de seu primeiro filme em Hollywood, Algiers, ao lado de outro produto importado da Europa, Charles Boyer. O puritanismo e a censura americanos cortaram cenas de Êxtase para a exibição nos cinemas, mas o sucesso do filme na Europa tinha sido impressionante demais para que os grandes estúdios não quisessem comprar o passe da moça, como compravam de todo o mundo. “Foi pela sua beleza morena que ela ganhou o contrato com a MGM, não por seu talento como atriz”, diz o livro Actors & Actresses. Outro livro, Leading Ladies, conta uma boa história: Louis B. Mayer, o chefão da MGM, encontrou-se com ela em Londres e ofereceu-lhe um contrato de seis meses por US$ 125 por semana. A atriz não assinou, mas mexeu pauzinhos para fazer a viagem Londres-Nova York ao lado de Mayer; quando chegou a Nova York, assinou um contrato de seis anos começando com US$ 500 por semana. Garota esperta.

Não teve, no entanto, carreira brilhante, nem em termos artísticos nem comerciais, como outras estrelas importados da Europa pelo ouro da Califórnia – Greta Garbo, Greer Garson, Marlene Dietrich, Ingrid Bergman. “Ela foi sempre escolhida para papéis sensuais e provocativos, e seu desenvolvimento como atriz foi severamente restringido pela reputação que tinha por causa das cenas de nudez de Êxtase”, diz o livro Actors & Actresses. “Paradoxalmente, sua pura beleza tornou-se um impedimento para que ela chegasse a ser considerada para papéis mais difíceis.” É o que diz esse livro .  Já o outro, Leading Ladies, diz que ela recusou os papéis principais de Laura e À Meia Luz – no primeiro brilhou Gene Tierney, no segundo, Ingrid Bergman. 

Seu maior sucesso em Hollywood foi Sansão e Dalila, um dos épicos bíblicos de Cecil B. DeMille, feito em 1949; Sansão era Victor Mature. Hedy Lamarr acabou ficando mais conhecida pelos divórcios e pelas fofocas do que como atriz, segundo se diz em Leading Ladies; foi presa duas vezes acusada de roubar em lojas (como aconteceria décadas mais tarde com Winona Ryder); em 1966, processou os editores de sua autobiografia Ecstasy and Me, alegando que os ghostwriters acrescentaram detalhes íntimos que ela não havia autorizado; depois processaria Mel Brooks, por ele ter criado, em Banzé no Oeste, um personagem chamado Hedley Lamarr, e iria à Justiça também contra uma empresa de computadores, por ter usado fotos suas sem a devida autorização. Morreria em Orlando, Flórida, em 2000, aos 87 anos.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

OS PÁSSAROS (THE BIRDS 1963) . REBOBINANDO CLÁSSICOS

Matéria atendendo pedido do leitor Rogério Sampaio

FICHA TÉCNICA

Título original: The Birds
Ano de lançamento: 1963
Direção: Alfred Hitchcock
Produção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Evan Hunter, baseado num conto de Daphne Du Marier
Duração: 120 minutos
Elenco: Tippi Hedren (Melanie), Rod Taylor (Mitch), Jessica Tandy (Lydia), Suzanne Pleshette (Anne), Veronica Cartwright (Cathy)
Indicações ao Oscar: Melhores Efeitos Visuais

SINOPSE

Melanie Daniels (Tippi Hedren), uma jovem da cidade de São Francisco, vai até uma pequena cidade isolada da Califórnia chamada Bodega Bay, atrás de um potencial namorado: Mitch Brenner(Rod Taylor). Mas na cidade começa de repente a acontecer fatos estranhos: pássaros de todas as espécies passam a atacar a população, em número cada vez maior e com mais violência, deixando todos aterrorizados.



UMA VISÃO

Os Pássaros é um filme atípico na carreira de Hitchcock. Depois de Psicose, ele precisava de uma história que superasse o seu thriller anterior, e, para isso, ele precisava de uma história maior e mais aterrorizante do que as suas tramas costumeiras. Parece muito difícil, mas o Mestre conseguiu: Os Pássaros superou Psicose, pelo fato do medo ser desencadeado por seres tidos como inofensivos, e, principalmente, pelas ações mostradas não terem qualquer motivo para acontecer. Hitchcock percebeu, como poucos, que o medo do desconhecido é o mais horripilante de todos, e é justamente este o que está presente nesta obra, uma de suas melhores.

São tantos os acertos neste filme que eu nem sei por onde começar. Bom, não tem como errar com a sinopse, não é? Pois bem, a história começa do modo mais fútil possível, com uma discussãozinha entre um advogado, Mitch (Rod Taylor), e uma socialite, Melanie (Tippi Hedren, mãe da também atriz Melanie Griffith) em uma loja de pássaros. Depois que ele vai embora, ela passa a se interessar por ele e o persegue até a cidade de Bodega Bay, onde estão acontecendo estranhos ataques de pássaros. Pela história, dá para se perceber que temos uma mudança completa de clima: de uma screwball comedy (ver a crítica de Um Casal do Barulho), passamos a um drama / romance, antes de entrarmos de cabeça num estado absoluto de horror. Nas mãos de qualquer outro diretor, Os Pássaros poderia se tornar uma produção inconstante ou até mesmo incoerente, mas Hitch consegue dar ritmo e unidade à sua trama, nunca deixando-a cansativa ou desinteressante.

Apesar de sua mudança de tom, Os Pássaros consegue cativar graças ao desenvolvimento de personagens. Este filme não é primariamente sobre o ataque dos pássaros, e sim, sobre como um certo número de personagens reagem aos seus ataques. A decisão de Hitch em focar nas pessoas em vez dos animais foi bastante sábia: já imaginou um filme de 2 horas cuja preocupação principal fosse um bando de passarinhos se rebelando contra a humanidade? Aliás, na primeira parte do filme, eles quase não aparecem, e por incrível que pareça, eles não fazem falta. O motivo é que ficamos cada vez mais interessados na tal “história fútil”: queremos saber, a principio, se Melanie vai conseguir encontrar Mitch e seduzi-lo. Depois que os dois se encontram, a trama vai se complicando, à medida que entram outros personagens na história, todos ligados à Mitch: a sua irmã caçula, Cathy (Veronica Cartwright, a eterna Lambert de Alien, o Oitavo Passageiro), que simpatiza com Melanie à primeira vista; a sua ex-namorada, Anne (Suzanne Pleshette), que ainda o ama e, finalmente, a sua mãe possessiva e carente, Lydia (Jessica Tandy, vencedora do Oscar por Conduzindo Miss Daisy). Os novos conflitos que irão surgir entre esses personagens servem para deixar a narrativa bastante movimentada, dando a ela uma força própria. Ou seja, nem se não aparecesse uma ave sequer, esse filme já seria bom. Mas eles aparecem… e como aparecem…

Hitch foi nada menos que brilhante (ele o era com frequência nos anos 50 e início dos anos 60), acalmando os nervos dos espectadores que foram ver o filme apenas para ver os ataques dos pássaros. Como o primeiro deles só acontece depois de 50 minutos de projeção, Hitch ofereceu alguns “aperitivos” para os impacientes: filmou uma investida solitária de uma gaivota aqui, mostrou uma multidão de corvos enfileirados em fios de poste acolá… E, nisso, matou dois coelhos em uma cajadada só: satisfez os ânimos dos mais afoitos, e, mais ainda, criou um clima quase sobrenatural de pavor, uma sensação de que algo muito errado esteja acontecendo, mas que não sabemos o quê (e esse incômodo vai só aumentar com o decorrer do longa), tornando a sua obra gradativamente mais instigante.

Para mim, Os Pássaros pode ser classificado como terror e não como suspense, pelo menos na definição clássica deste gênero desenvolvida pelo Mestre. Para ele, suspense era deixar o público sempre à frente do personagem, para que ele ficasse apreensivo quanto ao seu destino. E nesse filme, nós não sabemos absolutamente nada do que está acontecendo! Ficamos tão perdidos quanto os personagens, com exceção de uma pequena cena no meio do filme, que antecede um ataque de corvos. As sensações evocadas por Hitchcock neste longa não são mais de apreensão, tensão ou expectativa pelo que vai acontecer com os personagens.

Aqui, ficamos nada menos que apavorados pelo que pode acontecer, já que o comportamento dos pássaros (e até mesmo o de alguns personagens) é totalmente imprevisível, aflorando em cada um de nós o medo pelo desconhecido. Hitch até mesmo comenta essa mudança de estilo nas suas clássicas entrevistas com Truffaut, revelando que “o velho modo de fazer suspense” estaria “fora de moda”. Não sei se está fora de moda (se estivesse, seus filmes teriam perdido todo o seu impacto, não?), mas posso afirmar com toda a convicção que Hitch conseguiu mais uma vez emocionar e fazer com que prestemos total atenção ao filme. A única diferença é que, agora, não estamos mais adiantados em relação aos personagens, e sim, sofremos junto com eles.

Os ataques dos pássaros são executados de maneira perfeita e impressionam até hoje não só pela dificuldade de execução para os padrões técnicos da época, mas também pela impressão que eles nos deixam. Os ataques vão piorando progressivamente, primeiro com algumas gaivotas, alguns corvos, até que chegamos a um cenário quase apocalíptico em que as aves tomam conta de Bodega Bay, instaurando o caos. O fato deles nos marcarem tanto tem a ver com o fato das sequências serem magníficas do ponto de vista técnico. Através de sons, edições e truques, os pássaros assassinos nos proporcionam uma experiência sensorial única.

A técnica mais usada para tornar realidade a “revolta” dos pássaros foi a do vapor de sódio, criada pelos estúdios Disney e similar ao chroma key, no qual se coloca um ator ou objeto na frente de uma tela verde ou azul (o processo de vapor de sódio necessitava de uma tela amarela) e depois se substitui esse fundo. Em Os Pássaros, ela funcionou perfeitamente, e, para quem consegue se desprender um pouco da nossa atual realidade cinematográfica e dos efeitos computadorizados, dá pra perceber o quanto ela é eficaz. As inserções são muito bem-feitas, dando a impressão que muitos pássaros estão realmente na tela.

Muitas cenas também fazem uso de pinturas para completar o cenário, inseridas também pelo processo de vapor de sódio. Elas também apresentam um nível de realidade impressionante, e, dessa vez, até os espectadores dos dias de hoje podem se espantar com o resultado. Eu, que adoro tentar descobrir como tal tomada é feita em um filme (por exemplo, se ela precisou de um efeito visual ou não), nem suspeitei que alguns enquadramentos continham pinturas até eu assistir aos extras do DVD. Prefiro não dar exemplos porque quero que você também se surpreenda e tente encontrar as (várias) cenas em que o efeito é usado. Garanto que você vai se surpreender.


"Ele arruinou a minha carreira, mas não a minha vida", disse ela em uma conferência da Associação de Críticos de Televisão.
Tippi Hedren


Mas tais sequências nunca teriam o efeito que tiveram não fosse o som criado para as aves ameaçadoras. Se Hitchcock acertou em qualquer decisão tomada em Os Pássaros, mais do que todas as outras, foi a de não ter uma trilha sonora. Se houvesse música nos momentos mais impactantes do filme, a plateia ficaria mais distraída do que perturbada. Em vez disso, o Mestre optou pelo mínimo: a única “trilha” que escutamos são os sons emitidos pelos próprios pássaros e pelo bater de suas asas. E, entre cada ataque, não produzem qualquer som, criando um silêncio de gelar a espinha… Essa combinação de sons, juntamente com a composição visual dos ataques, consegue elevar o terror a um patamar máximo, quase insuportável, demonstrando a genialidade inquestionável de Hitchcock em causar um impacto nos seus espectadores.

Como exemplo, posso citar três cenas emblemáticas, perto do fim do filme: quando os personagens estão presos em casa, eles apenas ouvem os pássaros circulando o local, com seus pios cada vez mais fortes. A cena é bem impactante, porque, como já foi dito, o medo do que a gente não vê é muito mais forte do que quando a ameaça é revelada. O primeiro arrasa-quarteirão (ou blockbuster, como eu prefiro chamar), Tubarão, está aí para provar essa teoria. Outra sequência é o ataque das aves a um personagem no sótão da casa. Além de ser um exemplo de edição rápida e milimetricamente precisa (lembrando o assassinato no chuveiro, em Psicose), ela ainda mostra o quanto o som pode ser eficiente no cinema: assustamo-nos apenas com o ruído das asas dos pássaros. Aqui, eles não piam de jeito nenhum. Nem precisam! Por fim, temos a última cena, que eu não vou entrar em detalhes, obviamente, mas que nos deixa atônitos pelo som de várias aves piando em conjunto.

Os Pássaros não funciona apenas como terror. Ele também é alegoria. Os ataques são como uma válvula de escape, possibilitando a vazão de todos os temores, angústias existenciais e preconceitos dos personagens – que são próprios da humanidade no geral. Melanie, Mitch, Lydia e toda a população de Bodega Bay não estão desesperados apenas por temerem perder suas vidas: o ataque dos pássaros também os fez olharem para si mesmos e verem suas próprias falhas.

Hitch falava que este filme tinha a ver com o “perigo da complacência”, ou seja, do quanto tomávamos tudo na nossa vida por garantido – nossa liberdade, rotina, familiares e amigos, e até a alegria proporcionada por inofensivos passarinhos – e como essas coisas poderiam ser tomadas de nós de uma hora para outra. O filme pode levar a inúmeras interpretações, e esse é outro aspecto que faz dele uma verdadeira obra-prima do cinema.


Incrível, mas nunca sobra espaço nas minhas críticas para falar das atuações, exceto no final. Bem, antes tarde do que nunca, não é o que dizem? Então vamos lá: Os Pássaros não seria o que foi se não fosse pelo elenco muito bem escolhido. Como já foi dito, é um filme sobre pessoas, e não sobre pássaros, e atores e atrizes de segunda linha teriam diminuído, e muito, a qualidade do filme. Felizmente, Hitch reuniu um grupo com muita química, e que entregou à plateia interpretações consistentes com cada mudança de tom no filme. Muitos criticam Tippi Hedren, mas ela não é “só um rosto bonito” (lindo, neste caso). Ela consegue fazer a transição muito bem da ricaça arrogante para uma mulher corajosa e, finalmente, por mais uma vítima alquebrada pelos pássaros. Rod Taylor é a fortaleza do filme: seu personagem é ao mesmo tempo gentil e decidido, mesmo com tudo desabando à sua volta. E temos também a grande atriz, tanto do teatro quanto do cinema, Jessica Tandy, que é uma mãe hitchcockiana não tão excêntrica quanto às outras, mas igualmente atípica. Tandy encarna com naturalidade Lydia, que teme a solidão, e por isso, exerce um forte domínio nos filhos, de um modo quase que subconsciente.

Os Pássaros tem de tudo: muitas cenas de ação, desenvolvimento de personagens, com direito a romance e comédia e uma gama de efeitos visuais. Mas, acima de tudo, está ali, impresso em cada fotograma, o medo em sua forma mais pura, e por isso mesmo, mais assustadora. Se o suspense estava mesmo fora de moda, Hitchcock, com este filme, acabava de criar uma outra forma de causar algum tipo de impacto nas pessoas, tão eficaz e fascinante quanto a antiga.



REBOBINANDO O BLU RAY

Na sua estréia original, este filme do mestre do suspense Alfred Hitchcock (1899-80) não provocou grande reação no Brasil, nem nos EUA . Foi indicado a apenas um Oscar (de efeitos visuais que perdeu para Cleopatra!). Foi o primeiro que ele fez depois do grande êxito de Psicose (60) mas nesse meio tempo se dedicou mais a produzir, apresentar e ocasionalmente dirigir episódio da serie de teve de grande sucesso Suspense (Alfred Hitchcock Presents). Mas depois teve sua consagração quando foi apresentado pela TV Tupi no final dos anos 70, em horário nobre e teve enorme audiência. No dia seguinte só se falava nisso e na cena final que todo mundo achava que havia sido cortada pelo canal (que tinha essa ma fama). Foi depois reprisado igualmente com êxito e assim sem tornou um dos filmes favoritos do brasileiro. Esta nova edição em Blu Ray (já tinha saído como parte de um boxe de sua obra no estúdio) comemora os 50 anos do filme. 

E que hoje continua a aparecer extremamente ousado, particularmente em fazer um final aberto, intrigante, que deixa as pessoas discutindo. O filme, como todo mundo deve saber ,é inspirado em conto de Daphne Du Maurier (autora de” Rebecca, a mulher Inesquecível”, que em 1939 escreveu seu ultimo filme britânico (Estalagem Maldita) e depois em 1940 seu primeiro sucesso nos EUA, justamente Rebecca. Hitch comprou os direitos pensando em adaptar para a teve.  Daphne (1907-89) escreveu outros livros que viraram filmes famosos como Inverno de Sangue em Veneza (73), Gaivota Negra (44), O Estranho Caso do Conde (59 ), Eu te Matarei Querida (52). Curiosamente o filme e a historia tem pouco a ver. Somente o fato de se passarem a beira mar, numa cidadezinha a beira de uma baia, que é vitima de bizarros ataques de pássaros sem maiores explicações. Na obra de Du Maurier's o protagonista descobre que esse comportamento dos pássaros esta ligado diretamente com a subida e descida das mares e usa isso para derrotá-las. No filme não é feita essa conexão.  Além disso o original ser passa na Inglaterra, onde um homem tenta proteger sua esposa e dois filhos na sua casa isolada.

The Birds voltou a ser comentado recentemente porque fatos novos foram revelados, nem todos convincentes sobre a relação entre Hitch e sua descoberta para este filme que foi a modelo Tippi Hendren (haviam aspas no Tippi antes) e mais lembrada hoje como a mãe de Melanie Griffith, ex-mulher de Antonio Banderas. Foram em alguns livros e em dois filmes, mais precisamente em "A garota" co-produzido pela HBO e a  BBC . Esta afirmou que ela foi vitima de sedução, ameaçada e sofreu maus tratos na mão de Hitch (como era chamado e fazia questão disso). Fato desconhecido da gente ate agora e negado nas entrevistas feitas para o Making of que vem aqui, que é de 99, mas que foi explorado num roteiro totalmente trash de uma certa Gwyneth Hughes (que tem feito telefilmes).O roteiro não dá elementos para entendermos o seu comportamento descontrolado e maldoso (segundo o filme durante as filmagens de Os Pássaros porque ela não quis dormir com ele permitiu que ela se ferisse com os pássaros de verdade ou de mentira que a atacavam). Por outro lado, não fica muito claro embora tenha lido em resenhas que ele seria impotente (há uma cena onde há um fade out, escurecimento, onde deixa a entender que ela teria finalmente consentido! Ao menos fica dúbio). 


 Mas tudo se estraga de vez com um letreiro final que afirma que Marnie seria um sucesso e hoje é visto como a ultima obra prima do diretor. Só na cabeça dessa gente maluca, já que Marnie já foi sempre mal visto pela critica (que o achou antiquado) e ainda hoje é considerado um dos piores de Hitch (a ultima obra prima foi Frenesi, três filmes depois dele. Enganar tudo bem mas mentir é feio.
Grande parte do mérito do filme deve ir para o roteirista que é o famoso Evan Hunter (1925-2005), autor de muita obra famosa e também conhecido com o pseudônimo de Ed McBain : Sementes da Violência, 55, com Glenn Ford,  O Nono Mandamento com Kim Novak, 60, Juventude Selvagem, 61,  com Burt Lancaster, A Mulher sem Rosto, 63, com James Garner, Céu e Inferno, 63 de Kurosawa, O Ultimo Verão, com Barbara Hershey, 69, Sem Motivo Aparente, 69 com Jean-Louis Trintignant, Confusões por Todos os Lados, 72 com Lynn Redgrave, Aliados contra o Crime, 72 com Burt Reynolds, Laços de Sangue, 78, de Chabrol, com Donald Sutherland. Evan escreveu inclusive um Me and Hitchcock, sobre a colaboração entre os dois aqui e também depois em Marnie. 

DISSECANDO OS PÁSSAROS

 Há vários aspectos a se comentar do filme separadamente (mais acima, foi comentado inserido no texto)

1) não há trilha musical tradicional. Ao contrário o compositor habitual de Hitchcock Bernard Hermann assina como consultor e aprovou a idéia de irem ate a Alemanha conhecer uma experiência que se faziam com sons eletrônicos. Num aparelho chamado mixtrautonium, por Oskar Sala. Embora tenha musica incidental (Tippi tocando piano "Deux Arabesques" de Claude Debussy (1888), as crianças cantando na escola uma musica que tem letra de Evan Hunter) todos os efeitos são guardados para as cenas de ataque, com barulho simulando a voz dos diferentes pássaros.  O resultado é excepcional e favorece também os silêncios que provocam suspense, já que o publico fica esperando os ataques como na sequencia em que Tippi /Melanie vai fumar cigarro (coisas da época tanto ela quanto a professora fumam muito!) e de repente num momento ate longo no parque das crianças o trepa-trepa fica repleto de corvos! Que se preparam para atacar. E depois da morte do fazendeiro que já sabemos que são mortais! (o cadáver dele é mostrado em três planos cada um deles mais próximo que o seguinte, também novidade na época). 

2) Os figurinos do filme são da maior figurinista de Hollywood, a mais premiada (8 Oscars), a genial Edith Head que fez vários filmes com Hitch (como Um Corpo que Cai, Janela Indiscreta) .Foi quem desenhou os discretos tailleurs para Tippi (mas também suas roupas para apresentações pessoais). Assim a roupa verdade combina com os olhos verdes da atriz. Edith assinou 437 projetos. 

3) Hitchcock não gostava de rodar em locações. Aqui ele começa na praça mais famosa de San Francisco mas assim que Tippi/Melanie atravessa a rua e passa por um cartaz já se muda para o estúdio. Um garoto assovia com admiração para ela (mas era uma citação do comercial de teve que Fez com que Hitch prestasse atenção nela e a contratasse!). Entra então na loja de animais.

4) É já ai bem no comecinho do filme que Hitch faz sua tradicional aparição em cameo (pontinha), saindo da loja levando justamente seus dois cães de estimação que ficavam o tempo todo com ele, mesmo no estúdio!

5) O que mais me espantou revendo o filme é o fato de que ele desobedece as normas dos livros que ensinam como escrever roteiros. Nada acontece de suspense ou emoção até o primeiro ataque da gaivota em Tippi, isso já aos 25 minutos! Até ali temos apenas momentos de romance. O autor Hunter confirma que ele usou o velho truque das comédias screwballs dos anos quarenta fazendo que o casal se encontrar de forma bonitinha e engraçada, sendo que imediatamente ficam implicando um com o outro. Quase brigando, quase flertando. É o que sucede ate o primeiro ataque quando se muda de tom. Como Hitch gostava muito do gênero e de Carole Lombard fica-se com a impressão de que estava pensando nela ao aprovar esse estilo! 

6) A edição em Home vídeo tem um erro grosseiro de tradução ao chamar Hood de Pretos, quando o certo seriam marginais, delinqüentes, bandidos (como em Robin Hood). Ao usar esse nome demonstra um inaceitável preconceito! (isso sucede duas vezes num dialogo que a menina diz sobre o irmão que é advogado! Ou seja que o marginal tem que ser preto!). Um absurdo.

7) O clima é construído muito devagar começando com as galinhas que não querem comer e já na primeira sequencia Tippi presta atenção no céu da praça onde se percebe pássaros circulando como se fossem migrar.Foi cortada uma cena que foi rodada mas só aparece aqui em trechos do script e poucas fotos. Nela o casal tomando ar no alto da colina e vendo o mar, discute como teria tudo acontecido e brincam que os pássaros se reuniram e resolveram atacar os humanos. 

8) Reparem como Hitch procurou usar pássaros bonitos e amigáveis, como a gaivota, os pardais e o mais feioso seria apenas o corvo! E não agressivos como águias e gaviões.

9) Como se sabe Hitch tinha preferência por loiras, de Grace Kelly a Kim Novak e em geral colocava morenas de coadjuvante  como rivais. Aqui, ele dá esse papel a uma atriz subestimada e que merecia muito mais,a linda e boa atriz Suzanne Pleshette (1937- 2008) que ficou famosa no Brasil por causa de O Candelabro Italiano (depois se casou por uns tempos com o galão do filme Troy Donahue) e nos EUA na serie de teve The Bob Newhart Show. Muito divertida, famosa pela boca suja, ela faz a quase rival de Melanie/Tippi, a professora local. Tem poucas cenas e nem sequer uma boa saída de cena . Mas com pouco texto, consegue passar a verdade e a simpatia de Annie Hayworth, que amava e sofria em silencio. Sem nunca trair.

10) Hitch pensou em Farley Granger para o papel de Mitch mas ele tinha compromissos no teatro e o escolhido foi o australiano que esteve contratado pela MGM Rod Taylor (1930-). Este chegou a fazer papeis importantes (Zabrieskie Point para Antonioni, foi galã duas vezes de Doris Day e retornou em Bastardos Inglórios, irreconhecível por causa do alcoolismo).

11) Quem tem participação importante no filme é Jessica Tandy (1909-94), que só realmente ficaria famosa quando idosa (seria a mais velha atriz a ganhar um Oscar, no caso por Conduzindo miss Daisy em em 89). Hitch era velho amigo do marido dela que fez vários filmes com ele, Hume Cronyn. Aqui faz a mãe de Mitch/Rod, um personagem difícil porque inseguro, que promete mas não cumpre ser rival e inimiga de Melanie/Tippi. Jessica porém demonstra sua competência e uma beleza que é raramente comentada.

12) Há alguns atores coadjuvantes importantes no filme. Curioso como Hitch usou numa ponta um ator de comédia na época muito querido, Richard Deacon (1921-84), abertamente homossexual e que faz o vizinho que da instruções quando Melanie vai deixar o presente na porta. Toda a sequencia no restaurante chamado Tides também tem figuras características como Charles McGraw (aquele que prevê fim do mundo), Ethel Griffies como a ortonologista (Fez de A Ponte de Waterloo, a Como Era verde o meu Vale). Elizabeth Wilson (como a garçonete) mas sem duvida a mais lembrada de Veronica Cartwright, irmã de Angela, e que fez Infâmia, Alien, A Bruxa de Eastwick, Os Nove Irmãos. Mitch Zanich, dono do Tides fez acordo com a produção de emprestar o lugar em troca de ter uma fala e um personagem levar o seu nome.(Pode ser ouvido O que aconteceu Mitch? Depois do ataque da gaivota. E Mitch é o nome de Rod).

13) Os efeitos especiais foram inovadores, na medida em que a projeção de fundo colorido no chamado Blue Screen não dava bons resultados, principalmente nas bordas que ficavam azuladas. Resolveram então recorrer a técnica dos estúdios Disney, que  basicamente era gravar as imagens separadas (o ator que vai em primeiro plano e o fundo), utilizando bases em cores diferentes (amarelo a do background e a outra em branco). Por isso a união das duas imagens feitas em pos produção deram resultado muito melhores e convincentes,  mesmo ate hoje. 

14) Havia um outro final no roteiro mas não mudava muita coisa. Basicamente o carro com os sobreviventes ia atravessando a cidade que estava toda arrasada, com muitos mortos e vitimas. Quando estão saindo encontram novo bando de pássaros que atacam o carro (que é um conversível com cobertura de lona), os bichos estão vão furando essa lona ate romperem.Quando vão atacar e seriam mostrados num plano de baixo para cima, contra o céu, Mitch pisaria no carro e conseguiria escapar. 

 A sequencia porém não foi rodada segundo o roteirista porque sairia muito cara. De qualquer forma, Hitch fez o elenco e equipe jurar que não contaria o final. No extra chamado "o filme de Monstro de Hitchcok "(onde vários famosos comparam o filme á Tubarão de Spielberg que teria se inspirado muito nele!) se defende a teoria apocalíptica. Embora tenham realmente ocasionais ataques de pássaros a humanos (um inclusive com o filho da autora Daphne) o enredo faz imaginar algo maior, uma revolta mesmo e chegaram a pensar em ter pássaros em toda parte, ate mesmo na Golden Gate de San Francisco. Mostrando que não teria saída. Alguns dizem que foi uma critica a complacência humana diante da natureza, que um dia pode se revoltar. Por isso fizeram a cena da discussão do povo no restaurante (com a virada clássica do povo contra a heroína, já que tudo começou a acontecer quando ela surgiu na cidade. Alias Tipi conta que o tapa que deu na atriz que a ataca foi para valer a pedido da própria).Então o fim não é um clímax mas uma grande interrogação que o espectador tem que responder. 

Houve  uma continuação muito fraca feita para a teve, chamada Os Pássaros 2 (94, The Birds II: Land´s End, de Rick Rosenthal, com Brad Johnson e Chelsea Field (e participação pequena de Tippi em outro personagem). Importante: Hitchcock não quis colocar a palavra The End no fim do filme porque achava que nada se concluia. Tudo termina apenas com o Logo novo da Universal (que por sinal durou pouco). Não se pode esquecer das inúmeras imitações, durante anos os produtores imitaram Hitch e fizeram diversas revoluções dos animais contra os homens (Coelhos, Cobras, Aranhas, Jacarés, e assim por diante).


”Morro de medo de ovos, pior do que morrer de medo, eles me revoltam. Aquela coisa branca arredondada sem nenhum buraco. Você já viu algo mais revoltante de que uma gema de ovo quebrando e derramando seu líquido amarelo? O sangue é alegre, vermelho. Mas a gema do ovo é amarela, revoltante. Eu nunca a provei.”
 Alfred Hitchcock

sábado, 24 de janeiro de 2015

MATAR OU MORRER (HIGH NOON, 1952) ANÁLISE CRÍTICA


Os mais importantes títulos da magnífica filmografia de Fred Zinnemann são “Matar ou Morrer” (High Noon), “A Um Passo da Eternidade” (From Here to Eternity) e “O Homem que Não Vendeu sua Alma” (A Man for All Seasons). Todos esses três filmes têm a mesma temática que é a tomada de consciência por parte de homens diante de uma realidade que os acua. Sir Thomas More (Paul Scofield), Robert E. Lee Prewitt (Montgomery Clift) e Will Kane (Gary Cooper) estão entre os grandes personagens de filmes de todos os tempos, imortalizados como exemplos de dignidade e coragem nesses filmes de Zinnemann. O austríaco de nascimento Fred Zinnemann se viu obrigado a deixar seu país com a ascensão do nazismo e um pouco de sua trajetória pessoal está presente nos filmes acima referidos. Esses fatos merecem ser lembrados porque “Matar ou Morrer” é geralmente citado como uma película que objetivava, através do roteiro de Carl Foreman, apenas responder ao macarthismo que colocou Foreman na lista negra de Hollywood. John Wayne, um dos mais exaltados anticomunistas de Hollywood dizia que um filme vergonhoso como “Matar ou Morrer” jamais poderia ter sido produzido em seu país e completou afirmando que se orgulhava de ter ajudado a fazer Carl Foreman ‘correr’ dos Estados Unidos. A visão politicamente tacanha de John Wayne o impediu de perceber que o western de Fred Zinnemann era um dos mais significativos filmes não só daquele período negro da história de Hollywood, mas da própria história do cinema.

Decisão arriscada - Carl Foreman escreveu o roteiro de “High Noon” a partir de uma história de autoria de John W. Cunningham intitulada “The Tin Star” (nenhuma relação com o western "O Homem dos Olhos Frios" de Anthony Mann estrelado por Henry Fonda). Na adaptação de Foreman, numa manhã tranquila Will Kane (Gary Cooper) o xerife da pequena cidade de Hadleyville contrai matrimônio com a jovem Amy Fowler (Grace Kelly) e deixa o cargo partindo para uma nova vida. Após a cerimônia, antes da partida do casal, chega a notícia que Frank Miller (Ian MacDonald), um bandido preso por Kane e condenado pela Justiça foi libertado e deve chegar a Hadleyville no trem que para na cidade ao meio-dia. Miller é aguardado na estação por seu irmão Ben Miller (Sheb Wooley) e pelos amigos malfeitores Jack Colby (Lee Van Cleef) e Jim Pierce (Robert Wilke). Contrariando a esposa e o desejo de toda a comunidade, Will Kane decide permanecer e enfrentar o quarteto de bandidos. Conta para isso com a ajuda de amigos, os homens da cidade que conseguiu pacificar, mas um a um todos seus pretensos amigos, por razões diversas, se recusam a ajudar Will Kane que se vê sozinho. Helen Ramírez (Katy Jurado), uma mexicana que foi amante de Frank Miller e também de Will Kane, convence Amy Fowler a permanecer ao lado do marido na missão aparentemente suicida de se confrontar com o sedento por vingança Frank Miller. A acovardada população de Hadleyville assiste Will Kane, secundado pela esposa Amy, exterminar o bando e partir deixando para trás o medo, a frouxidão moral e mais que tudo a ingratidão de Hadleyville.

Estupenda direção de atores - Fred Zinnemann é tido como um diretor pouco inventivo, narrando histórias de forma linear, cinematograficamente acadêmica. “Matar ou Morrer” é o oposto de tudo isso pois seus 85 minutos são conduzidos inteiramente sob tensão, resultado do excepcional trabalho de edição do montador Elmo Williams, da fotografia semidocumentária de Floyd Crosby e da música de Dimitri Tiomkin. A Zinnemann deve-se a incrível comiseração extraída do personagem principal Will Kane através da angustiante interpretação de Gary Cooper. Will Kane é o personagem principal, mas de igual importância aos personagens femininos Amy Fowler e Helen Ramírez, especialmente esta última. Às duas mulheres cabem as ações decisivas de “Matar ou Morrer”, pois é a Señora Ramírez quem diz verdades e incute dose de estoicismo em Kane e a força que a frágil Amy Fowler precisa encontrar no apoio ao marido. E Amy, por duas vezes se faz presente no tiroteio final, primeiro ao alvejar o bandido Pierce pelas costas e depois ao enfiar as unhas nos olhos de Frank Miller quando este a usava como escudo, possibilitando a Kane o disparo final e certeiro contra o celerado. Conceituado diretor de atores (seis artistas dirigidos por Zinnemann receberam Oscars de interpretação [Gary Cooper, Frank Sinatra, Donna Reed, Jason Robards, Paul Scofield e Vanessa Redgrave] e outros 12 receberam indicações para esse prêmio), o elenco de “Matar ou Morrer” tem uma coesão interpretativa raramente vista em um western. Tenso do início ao fim, toda sorte de sentimentos são expressos pelo vasto e magnífico elenco dirigido por Zinnemann, como que a comprovar que o filme é sim dele, contando com os colaboradores citados.

Alegoria ao macarthismo - “Matar ou Morrer” foi rodado em 1952, quando mais grassava a odiosa ação do senador Joseph McCarthy contra a comunidade cinematográfica norte-americana. Além de escrever o roteiro, Foreman que foi um dos perseguidos pela sanha brutal do macarthismo, atuou como produtor executivo desse western. Apesar de todos os esforços do produtor Stanley Kramer para reduzir o teor recriminatório do enredo, “Matar ou Morrer” é uma alegoria perfeita do que ocorreu com aqueles vitimados pela perseguição e que se viram, como o próprio Foreman, expurgados de Hollywood. À parte, no entanto, a mensagem política da história, o western de Zinnemann é um filme perfeito que envolve o espectador do princípio ao fim, ao longo de sua relativamente curta duração. O preto e branco das imagens acentua a dramaticidade e Will Kane, com suas vestes sombrias, é um ser fadado a morrer. Em determinado momento o constrangido Kane diz ao barbeiro-agente funerário que ele pode continuar com seu trabalho (de preparar caixões de defunto) interrompido por um instante. “Matar ou Morrer” começa ameaçador com a imagem de Lee Van Cleef (por si só uma ameaça) e com seu encontro com demais asseclas. Segue-se o único momento alegre da história com o casamento seguido do congraçamento entre nubentes e testemunhas. Daí para a frente o que o espectador vê é um filme depressivo, um álbum da pusilanimidade humana.

A simplicidade musical de Tiomkin - A ideia inicial da produção era que a ação de “Matar ou Morrer” se passasse em tempo real, o que ocorre até a chegada do trem a Hadleyville. Para marcar o tempo inúmeros relógios foram colocados nos diversos cenários, de forma pouco discreta (há relógios em toda parte) mas não intrusiva. Porém o grande achado do western de Zinnemann foi o uso da trilha sonora musical criada por Dimitri Tiomkin. O ator-cantor Tex Ritter anuncia ao cantar os versos da “Ballad of High Noon” (Do not forsake me, oh my darling...) o que vai acontecer no decorrer do filme e o persistente som de percussão batendo no ritmo do trotar de um cavalo cria uma preciosa tensão sonora. Tiomkin fugiu do tom pomposo ainda tão comum nos anos 50 nas trilhas sonoras mesmo de westerns e sua criação musical está em harmonia com a simplicidade de “Matar ou Morrer”. Rodado em 28 dias, sete deles dedicados aos ensaios do elenco, este western foi visivelmente inspirado em “O Matador” (The Gunfighter), de Henry King, realizado dois anos antes. Gregory Peck foi o primeiro nome lembrado para interpretar Will Kane, mas não aceitou justamente pela semelhança do personagem com o Jimmy Ringo de “O Matador”. “Matar ou Morrer” custou modestos 750 mil dólares, 300 mil deles para pagar o salário de Gary Cooper. Por sua interpretação como Will Kane, Cooper recebeu o Oscar de Melhor Ator de 1952, não podendo no entanto comparecer à cerimônia de entrega e sendo substituído por John Wayne. Ao receber o prêmio, Wayne fez um pequeno discurso dizendo que gostaria de ter interpretado Will Kane pois assim poderia fazer o personagem de forma diferente e mudar o filme do qual nunca escondeu que detestara.

A expressão sofrida de Gary Cooper - Howard Hawks, outro expoente da direita de Hollywood, declarou tempos depois: “Eu filmei ‘Rio Bravo’ (Onde Começa o Inferno) porque não gostei de ‘High Noon’, assim como John Wayne também não gostou. Não creio que um bom xerife deva ficar dando voltas na cidade como um frangote pedindo ajuda a qualquer um. E quem é que salva esse xerife? Sua religiosa esposa. Essa não é minha concepção de um bom western.” Do que Hawks e Wayne não gostaram foi de “Matar ou Morrer” expor o lado soturno da América que eles tanto amavam. Curiosamente, os únicos habitantes de Hadleyville que se propuseram a ajudar Will Kane foram um velho alcoólatra (e cego) e um adolescente; na obra-prima “Rio Bravo” há também personagens de velho, bêbado e jovem. Gary Cooper, outro ator defensor do macarthismo foi bastante cobrado por ter participado de um filme como “Matar ou Morrer”. Mais ainda por ter sido um trabalho fisicamente desgastante para o ator então com 50 anos de idade. Cooper filmou mesmo sofrendo com uma úlcera estomacal e uma hérnia de disco que lhe dificultava os movimentos. Mesmo assim Gary Cooper não utilizou dublê na feroz luta que Will Kane trava no celeiro contra o auxiliar de xerife Harvey Pell (Lloyd Bridges). A expressão cansada e triste de Gary Cooper não foi resultado apenas de sua capacidade interpretativa, mas também de suas precárias condições físicas.

O brilho de Katy Jurado - O grande destaque de “Matar ou Morrer” fica para a atriz mexicana Katy Jurado que criou o mais digno e forte personagem feminino latino de um faroeste, distante dos estereótipos que mostravam latinos de modo caricato. A esplêndida atuação de Katy Jurado (esquecida pelo Oscar) foi premiada com o Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante. Nesse mesmo ano ela recebeu também o Ariel de Prata (prêmio mexicano correspondente ao Oscar) como Melhor Atriz por sua atuação em “El Bruto”, de Luís Buñuel, rodado no México. O elenco de apoio de “Matar ou Morrer” reúne grande número de excelentes atores em papéis curtos mas todos eles expressivos. Destoa apenas Thomas Mitchell, excessivo em seu discurso dentro da igreja. Sergio Leone homenageou “Matar ou Morrer” recriando a sequência inicial da espera pelo trem em “Era Uma Vez no Oeste” (C’Era Uma Volta Il West) que tem Jack Elam em longa tomada de câmara, ao contrário da cena curta que o ator participa no filme de Zinnemann. Leone não se esqueceu também da gaita que Lee Van Cleef toca enquanto aguarda a chegada do trem motivando o diretor italiano a criar o ‘Harmônica’ interpretado por Charles Bronson. “Matar ou Morrer” é uma obra-prima absoluta, dos melhores filmes do gênero western, seminal e verdadeiramente inesquecível em sua mensagem e simplicidade. Will Kane permaneceu sozinho com sua consciência enquanto a cidade se uniu pelo medo e submissão ao poderoso Frank Miller e seus capangas neste primoroso estudo da covardia do ser humano num faroeste.


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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O MATADOR (THE GUNFIGHTER, 1950) - ANÁLISE CRÍTICA


Entre os westerns que abriram a incomparável década cinematográfica dos anos 50, o historiador de cinema William K. Everson em seu fundamental livro “The Pictorial History of the Western Film” (1975) aponta “Caravana de Bravos” (Wagonmaster), “Flechas de Fogo” (Broken Arrow) e “O Matador” (The Gunfigther) como os mais importantes, dizendo que este último é de longe o melhor deles. E Everson conclui afirmando que os muitos prêmios e fama conquistados por “Matar ou Morrer” (High Noon), de 1952, deveriam ser atribuídos a “O Matador”, do qual o filme de Fred Zinnemann usurpou as decantadas inovações que o consagraram. Desprestigiado até ter sua importância lembrada por Everson, “O Matador” tornou-se através dos anos um dos westerns mais reverenciados do gênero e não para poucos, uma autêntica obra-prima.

Dos ringues para o Velho Oeste - Jack Dempsey havia sido campeão mundial de boxe (pesos pesados) entre 1919 e 1926. Após retirar-se dos ringues Dempsey abriu um restaurante em Nova York, próximo ao Madison Square Garden, onde os clientes gostavam de ouvir as histórias sobre pugilismo contadas pelo ex-campeão. O escritor William Bowers ouviu certa noite Dempsey dizer que a pior coisa do fato de ter sido campeão era ser constantemente desafiado por alguém que se julgava superior a ele. Bowers foi para casa com aquilo na cabeça e desenvolveu uma história cujo tema era justamente os dissabores que a fama pode trazer. Bowers ambientou sua história no Velho Oeste e o campeão de boxe virou um pistoleiro. O também escritor, roteirista, produtor e eventualmente diretor Nunnally Johnson se interessou pela história de Bowers e a mostrou ao húngaro André De Toth, então mais famoso por ser o marido de Veronica Lake do que pelos bons filmes que fazia, entre eles o western-noir “Fúria Abrasadora”, estrelado por Joel McCrea. De Toth e Nunnaly Johnson transformaram o texto de Bowers em um roteiro que seria filmado por André De Toth e produzido para a 20th Century-Fox.

Quando Darryl F. Zanuck, o diretor de produção do estúdio percebeu o potencial daquele faroeste, dispensou De Toth e entregou a direção ao mais confiável diretor da casa, exatamente Henry King, autor de tantos filmes excelentes e outros nem tanto, nos quais deixava sempre a marca de sua impessoalidade. Depois de dirigir Tyrone Power inúmeras vezes, chegara a vez de Gregory Peck fazer parceria constante com Henry King. E Peck foi o escolhido para ser o pistoleiro do novo faroeste.

O bigode de Gregory Peck 

Para compor a imagem do pistoleiro Jimmy Ringo foi pedido a Gregory Peck que deixasse crescer o bigode e se submetesse a um esquisito corte de cabelos, além de usar botas de cano alto e uma vestimenta bastante simples. Jimmy Ringo em nada lembrava o extravagante Lewt McCanles que Peck interpretara no grande êxito comercial que havia sido “Duelo ao Sol”. O fato era que Jimmy Ringo não lembrava nenhum mocinho de outros westerns. Talvez lembrasse vagamente, na aparência, o Henry Fonda de “Jesse James” e de “Paixão dos Fortes” (My Darling Clementine). Após duas semanas de filmagens o presidente da Fox Spyros Skouras assistiu a alguns trechos já filmados e se desesperou com o que viu: o maior astro dos estúdio totalmente desglamurizado, mais que isso, inteiramente sem graça e com aquele horroroso bigode. Skouras ordenou que tudo que havia sido filmado fosse refeito, mas Nunnally Johnson e Henry King argumentaram que isso teria um custo de 300 mil dólares, o que levou o grego Skouras a aceitar Peck sem sal, sem brilho e ainda com aquele bigode. Skouras, que presidia a 20th Century-Fox de seu escritório em Nova York demonstrou entender pouco de cinema pois Gregory Peck com aquela aparência iria protagonizar uma incomum história do Velho Oeste.


A mais inglória fama - Jimmy Ringo (Gregory Peck) e Mark Street (Millard Mitchell) foram antigos companheiros num bando de foras-da-lei. Ringo ganhou notoriedade por ser um gatilho muito rápido e por haver batido em confrontos pelo menos 15 homens que ousaram desafiar sua perícia. Após se separarem Mark Street preferiu seguir caminho diferente e tornou-se o xerife de Cayenne, impondo a lei e ordem com rigor no pequeno lugarejo. Peggy Walsh (Helen Westcott), a esposa de Jimmy Ringo, com o filho Jimmie Walsh (B.G. Norman) vivem em Cayenne, onde ela é professora e usa o sobrenome Walsh. Incógnita, somente Mark Street e a cantora de saloon Molly (Jean Parker) sabem que Peggy é esposa do pistoleiro. Peggy cansou-se da vida irregular que levava com Jimmy Ringo e afastou-se dele. Passando por uma outra cidade onde foi reconhecido, Jimmy Ringo foi obrigado a matar, em legítima defesa, um jovem provocador de nome Eddie (Richard Jaeckel) que se achava mais rápido que Ringo. Aos 35 anos de idade Ringo conclui que não pretende passar o resto da vida tendo que provar que é tão rápido no gatilho quanto os lendários Wyatt Earp ou Buffalo Bill. Ringo ruma para Cayenne para convencer Peggy da possibilidade de constituírem vida nova em um lugar distante onde ele não seja reconhecido. Mark Street procura ajudar o ex-companheiro de crimes e quando Ringo está para sair de Cayenne é alvejado pelas costas por Hunt Bromley (Skip Homeier), outro jovem em busca da fama de ter matado Jimmy Ringo. Antes de morrer Ringo pede que Bromley não seja preso para que esse jovem covarde possa viver com a inglória (e imerecida) fama de ser o mais rápido pistoleiro do Oeste. E que morra com ela.


Vislumbrando a simples felicidade - O que fez de "O Matador" um western importante é inicialmente o tema inusitado do pistoleiro que tenta fugir da fama que carrega. Heróis dos faroestes sempre foram homens invencíveis, determinados e sem aparentes problemas psicológicos que pudessem afligi-los por matar (bandidos especialmente). Citado no filme, o grande exemplo é Wyatt Earp que, levado ao cinema como honrado e bravo homem da lei, teve o próprio cinema em westerns revisionistas como veículo para resgatar a verdade de sua existência. Jimmy Ringo saboreou na juventude a fama de pistoleiro imbatível e a rotina de responder à bala às provocações. Com o amadurecimento veio a amargura e a tristeza de não poder sequer ter uma vida familiar.

Ao tomar um drinque com um modesto mas feliz rancheiro que recusou um segundo drinque porque queria voltar para casa e ficar com a família, o temido Jimmy Ringo sente inveja daquela vida e decide ali que para encontrar a própria felicidade terá que se transformar em outra pessoa. Esquecer que um dia foi Jimmy Ringo. O segundo aspecto importante de "O Matador" é sua concepção artística e da qual o grande responsável é, sem dúvida, Henry King. Centrado em sua maior parte nos diálogos travados no 'Palace Saloon' dirigido por Mac (Karl Malden) e com uma notável economia de ação e cenários que mais valorizam a intenção de mostrar o lado humano de Ringo, são esses elementos que tornam o western de Henry King um admirável filme.

Western seminal - "O Matador" é admirável e influente pois seu preto e branco, num tempo em que mesmo westerns 'B' eram filmados em cores, lhe possibilitou contornos dramáticos que William K. Everson comparou a "uma tragédia grega". E vieram depois "Matar ou Morrer", "Gatilho Relâmpago" e muitos westerns em que outros homens claudicam ao invés de seguirem os arquetípicos heróis dos faroestes. "Matar ou Morrer" copiou de "O Matador" o uso insistente do relógio mostrado para intensificar o drama de Jimmy Ringo. E "Galante e Sanguinário" fez uso das horas até mesmo no próprio título. Se necessário fosse destacar um único ponto importante de "O Matador", este seria a extrema simplicidade da sua produção e que resultou num clássico absoluto. Muito ajudou na composição visual do filme de Henry King o despojamento de Gregory Peck, cuja inesperada perfeita atuação o firmou como grande ator, ele que carregava a fama de canastrão após o melodramático "Duelo ao Sol", fama amenizada por “Céu Amarelo” rodado em 1948.


Elenco com altos e baixos - A grande atuação de Gregory Peck por pouco não foi ofuscada por Millard Mitchell, soberbo como o xerife que se reabilita e quer ajudar a reabilitar Jimmy Ringo. Ator nascido em Cuba e que tantas excelentes atuações proporcionou em filmes como "Winchester 73", "O Preço de um Homem" e "Cantando na Chuva", Mitchell veio a falecer de câncer do pulmão aos 50 anos de idade, em 1953. Helen Westcott está muito bem como a discreta mulher que quer fugir da infausta fama de esposa do pistoleiro mais rápido do Oeste. Richard Jaeckel sai-se bem como o jovem provocador em sua pequena participação no início do filme. O mesmo não se pode dizer de Skip Homeier inconvincente como o desafiador e depois assassino de Jimmy Ringo. A decepção entre os intérpretes fica por conta de Karl Malden, ator de incontáveis irrepreensíveis interpretações, mas que está inteiramente fora do que se espera de um responsável pelo saloon local. Sem falar no seu bizarro penteado tentando encobrir a calvície.


O mais simples dos faroestes - “O Matador” tem a esplêndida a fotografia de Arthur C. Miller, famoso por "A Marca do Zorro" (Tyrone Power), "Como era Verde o Meu Vale" e também por "Consciências Mortas". E Alfred Newman responde pela trilha sonora, discreta como o filme pedia. A austera Direção de Arte e a Decoração de Cenários completa a concepção modesta de “O Matador” como se fosse um western ‘B’. John Ford se aproximaria dessa simplicidade, doze anos mais tarde, com “O Homem que Matou o Facínora”. No aspecto financeiro “O Matador” não chegou a dar prejuízo porque os fãs de westerns e fãs de Gregory Peck foram assistir ao filme de Henry King, mas ficou longe de dar o lucro que a 20th Century-Fox esperava. E Spiros Skouras quando encontrou Gregory Peck disse a ele que aquele bigode fora o responsável pelo fracasso de “O Matador”. Mal sabia o presidente da Fox que nas décadas seguintes seria cada vez mais difícil encontrar um cowboy de rosto limpo e que aquele western com Gregory Peck seria, para muitos críticos, o melhor de toda a carreira do ator. 

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