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quinta-feira, 12 de março de 2015

WINCHESTER 73 / ESTIGMA DA CRUELDADE / GALANTE E SANGUNÁRIO / MATO EM NOME DA LEI (CRÍTICAS)



DE 4 FILMES WESTERN

WINCHESTER 73

Gênero: Ação
Direção: Anthony Mann
Elenco: Dan Duryea, James Stewart, Shelley Winters
Duração: 92 min.
Ano: 1950
País: Estados Unidos

O escritor Stuart N. Lake conheceu Wyatt Earp por volta de 1925. Earp faleceria em 1929. Lake diz que ouviu muitas histórias contadas pelo ex-Sheriff de Tombstone e se encarregou de ampliar ainda mais a lenda que envolvia o nome do famoso homem da lei. Além disso, Lake escreveu boas histórias que foram aproveitadas pelo cinema. Uma das melhores é “Winchester 73” (Winchester ’73), na qual o autor cria verdadeiro mosaico de situações num genial apanhado do Velho Oeste. E Lake não se esqueceu de seu amigo Wyatt Earp, que na história promove em Dodge City uma competição entre atiradores, justamente no dia da comemoração do Centenário da Independência, 4 de julho de 1876. O vencedor da competição tem como prêmio o cobiçado mais perfeito rifle até então fabricado, apelidado de “Um Entre Mil”. Fritz Lang deveria dirigir “Winchester 73”, mas desistiu e, num desses felizes encontros que o destino costuma promover, o pouco conhecido diretor Anthony Mann e o consagrado astro James Stewart se reuniram nesse western da Universal International, ambos ajudando a mudar o jeito de Hollywood fazer faroestes.

Lin McAdam (James Stewart) chega a Dodge City não para competir pelo rifle, mas para encontrar e se vingar de seu irmão Matthew McAdam, fora-da-lei mais conhecido por Dutch Henry Brown (Stephen McNally). Dutch havia matado o próprio pai atirando nele pelas costas e o bom filho Lin decide fazer justiça com as próprias mãos, Colt 45 ou até mesmo com a Winchester 73. Dutch, por seu lado, quer o rifle a todo custo pelo valor que ele possui e para usá-lo em seus próximos projetos como ladrão de bancos. Lin vence a competição mas Dutch o embosca e lhe rouba a Winchester 73. Tem início então a sequência de mudança de donos do rifle que passa para o traficante de armas Joe Lamont (John McIntire), depois para o índio Young Bull (Rock Hudson), o rifle é depois achado pelo soldado Doan (Tony Curtis), a arma permanece um pouco com um oportunista chamado Steve Miller (Charles Drake), de quem é tomada à força pelo facínora Waco Johnny Dean (Dan Duryea), até voltar para Dutch Henry Brown. Um assalto ao Banco de Tascosa não dá certo e Dutch foge com o rifle, sendo perseguido pelo irmão. Defrontam-se numa elevação de formações rochosas e Lin, finalmente, se vinga ficando com a Winchester 73 e com o bem vencendo o mal.

A história de Stuart N. Lake é de certa forma simples, mas foi brilhantemente roteirizada pela dupla Borden Chase e Robert L. Richards. Esse roteiro consistente ao integrar as mudanças de dono da Winchester 73, possibilitou que a direção de Anthony Mann desenvolvesse a história em forma de capítulos todos eles emocionantes. Isto desde a sequência da chegada de Lin McAdam a Dodge City e a saborosa competição pelo rifle que abre o filme, torneio organizado por Wyatt Earp (Will Geer). Excelente também o encontro de Dutch e seus comparsas Wesley (Steve Brodie) e Wheeler (James Millican), com o traficante de armas Joe Lamont. Poucas vezes o clássico jogo de pôquer foi tão determinante num filme como o travado entre Joe Lamont e Dutch Henry Brown, valendo 300 dólares ou a Winchester 73. Mas o rifle não para nas mãos de ninguém e é com ele que o jovem chefe Young Bull comandando uma centena de índios tenta repetir Little Big Horn contra um pequeno grupo de soldados da Cavalaria sob as ordens do Sargento Wilkes (Jay C. Flippen). Nova sequência de ação acontece com o psicótico bandido Waco Johnny Dean e seus homens encurralados pelo sheriff Noonan (Ray Teal). Waco consegue fugir com o rifle e no saloon de Tascosa, em frente ao banco local, encontra o raivoso Lin McAdam em novo momento de ação. O duelo de rifles entre Lin e Dutch é extremamente realista com balas ricocheteando por entre as rochas. Um único vacilo de Dutch põe fim à perseguição e concretiza a vingança.

Porém “Winchester 73” não é somente um filme de ação pois tem o componente psicológico da vingança que justifica a obsessão de Lin McAdam. E isto sem que esse fator interrompa o andamento incessante da ação em seus 92 minutos de duração. Aceita-se psicologismos em qualquer gênero, menos nos faroestes dos quais se espera apenas movimentação. E acusa-se os faroestes de se tornarem cansativos quanto tentam mostrar que habitantes do Velho Oeste eram também humanos. Motivado pelo trágico passado familiar o personagem Lin McAdam é levado à beira da loucura, como na sequência do bar com Waco Johnny Dean. A revelação das razões da ira e sede de vingança de Lin McAdam são citadas gradativamente levando o espectador a aceitar a ferocidade do personagem. Para muitos uma obra-prima, “Winchester 73” tem alguns pecados que, se não comprometem sua qualidade, o impedem de ser um filme excepcional. O ataque dos índios foi feito com muita economia e seu desfecho com a morte de Young Bull é inconvincente. A fotografia dos irmãos McAdam exposta na cabana onde os bandidos estão escondidos é uma total incoerência pois um homem capaz de matar o pai não carregaria a foto da família, por sinal em excelente estado de conservação. E Dutch em momento algum denota arrependimento, tentando, isto sim, matar também o irmão. Lola tentando salvar uma criança em meio ao tiroteio após o assalto ao banco é um desses clichês inaceitáveis em um filme tão brilhantemente concebido.

Provavelmente de todos os ‘Wyatt Earps’ que o cinema mostrou, o de Will Geer é o menos carismático, além de pesado e idoso demais  (Geer estava com 48 anos). No ano do torneio Earp tinha 28 anos enquanto Will Geer parece ter o dobro disso e é inevitável a saudade da elegância de Henry Fonda. Na história Wyatt Earp se impõe como o mais temido homem do Oeste e na realidade Earp, em 1976, era apenas assistente do irmão James Earp, este sim o Marshall de Dodge City. Pobre Shelley Winters, totalmente perdida, mudando mais de braços que o disputado rifle mudava de mãos, num personagem sem brilho e totalmente desnecessário. Outro personagem fraco por força do roteiro é o de Charles Drake, que, no entanto, em uma cena incomum de covardia foge deixando a noiva Lola à mercê dos índios. Millard Mitchell seria o companheiro de jornadas de James Stewart sem conseguir ser interessante quando filosofa ou mesmo quando quer ser cômico, ao dizer que se senta no hífen de seu apelido ‘High-Spade’. Muito melhor momento de descontração, momento quase sublime, é Jay C. Flippen recebendo agrados de Lola (Shelley Winters). Stephen McNally se esforça para parecer capaz da atrocidade de matar o pai, isto no mesmo filme em que está o perverso Dan Duryea. Inacreditável que ninguém tenha tido a idéia de transformar Duryea no irmão de Stewart e tornar “Winchester 73” perfeito? Uma pena pois até fisicamente Duryea e Stewart são mais parecidos.

Mas o enorme elenco tem compensações de sobra com as esplêndidas atuações de John McIntire, Jay C. Flippen, John Alexander (o dono do bar-hotel no meio da estrada) e a pequena participação de Ray Teal. E há os novatos Rock Hudson tentando não provocar risos como índio, ele que ainda viria a interpretar também Taza, outro índio em "Herança Maldita"; Tony Curtis e James Best com poucos momentos na tela, assim como os bandidos Abner Biberman, Stevie Brodie e os excelentes James Millican e John Doucette. De quebra o filme mostra também o fortíssimo Chuck Roberson sendo batido pelo esquálido mas raivoso James Stewart na porta do saloon em Tascosa. A festa de rostos conhecidos que a Universal convocou para pequenas participações em “Winchester 73” parece não ter fim e com prazer o espectador vê, entre outros, Steve Darrell, Guy Wilkerson, Chief Yowlachie e Tex Cooper.


Nada, porém, foi mais importante em “Winchester 73” que ter revelado para o faroeste um de seus mais importantes cowboys, James Stewart. Descontado seu ‘Destry’ de 1939, Stewart teve pelas mãos de Anthony Mann o início do processo que o consagraria como um dos maiores atores norte-americanos de todos os tempos. Foi aqui antecipado o tipo neurótico e vingativo com que Stewart enriqueceria o cinema com uma fantástica galeria de personagens nos próximos dez anos, culminando com suas criações máximas em “o Preço de um Homem” e “Um Corpo que Cai”. “Winchester 73” é a perfeita transição entre o western de rotina, acelerado e vazio e o grande faroeste que a década de 50 se acostumou a assistir. Muitos comparam Anthony Mann a John Ford como grande diretor de westerns. Anthony Mann, além de desenvolver a ação de seus filmes em cenários abertos e majestosos, coloca em seus personagens dimensões trágicas e intensidade psicológica. Se os westerns de Mann são magníficos, alguns soberbos mesmo, se ressentem no entanto, numa comparação com os de John Ford, do lirismo e da poesia com que o Mestre das Pradarias inspiradamente emoldurava seus filmes. Ford teve John Wayne, Anthony Mann teve James Stewart e nós tivemos grandes faroestes como não deixa de ser “Winchester 73”.


MATO EM NOME DA LEI

Título Original: Lawman
País de Origem: EUA
Gênero: Faroeste
Tempo de Duração: 99 minutos
Ano de Lançamento: 1971
Direção: Michael Winner

Aos quase 60 anos, em 1971/1972, Burt Lancaster surpreendeu o mundo do cinema atuando em três westerns intitulados “Mato em Nome da Lei” (Lawman), “O Retorno de Valdez” (Valdez is Coming) e “A Vingança de Ulzana” (Ulzana’s Raid). Eram tempos em que a presença das forças norte-americanas no Vietnã era fortemente condenada mas encontrava também alguns poucos que tentavam justificá-la. “Mato em Nome da Lei” é uma alegoria àquela guerra ainda que o western de Michael Winner se abstenha de qualquer tipo de julgamento. Justamente por fazer referência indireta à presença de Tio Sam no Vietnã, esse western foi praticamente ignorado quando de seu lançamento, somado ainda à dose elevada de violência e ao uso de características técnicas próprias dos westerns-spaghetti. Hoje, visto à distância daquele momento político e após os tantos filmes em que justiceiros tentam sozinhos implantar a lei e a ordem, “Mato em Nome da Lei” deixa uma impressão bastante melhor que quando de seu lançamento, tempos que alguém já chamou de “os intoxicantes anos 70”.

O filme conta a história do Marshall Jared Maddox (Burt Lancaster), inflexível homem da lei que sai de Bannock, cidade onde é a autoridade, em direção Sabbath, cidade dominada pelo fazendeiro Vincent Bronson (Lee J. Cobb). Maddox não tem nenhuma jurisdição em Sabbath, o que não o impede de tentar prender sete homens responsáveis por um assassinato ocorrido lá em Bannock. Bronson e seus homens foram os responsáveis por essa morte quando passaram por Bannock e inconsequentemente dispararam tiros a esmo. O Marshall Maddox quer prender os responsáveis pacificamente contando para isso com a ajuda da autoridade local, o Marshall Cotton Ryan (Robert Ryan). No entanto Cotton é também subordinado a Bronson, assim como praticamente todos na cidade, desde o prefeito, passando pelos comerciantes até chegar aos modestos rancheiros. Sabendo-se ameaçados os homens de Bronson tentam enfrentar Maddox e vão sendo mortos à medida que os enfrentamentos ocorrem, entre eles o filho de Bronson o que o leva cometer suicídio. Apenas um jovem chamado Crowe Wheelright (Richard Jordan) sobrevive, aparentemente porque aceita a intransigente maneira de ser de Maddox.

Jared Maddox é um homem solitário, triste e taciturno que não admite que um crime fique impune e se necessário executa ele próprio a justiça, sua forma de impor a lei e a ordem. Maddox não é propriamente um justiceiro ou um regulador pois está investido da autoridade nos limites de sua cidade. Fora de sua jurisdição usa o distintivo e a fama de homem frio e sem escrúpulos para se impor. Maddox tem seu próprio código de ética e age movido pela filosofia própria em que uma morte sempre se justifica quando ela ocorre no cumprimento da lei. Diferentemente dos fazendeiros poderosos de outros westerns, Bronson é dotado de equilíbrio e senso de responsabilidade. É um barão de gado que dá liberdade a cada um de seus homens para que decidam quanto ao enfrentamento com Maddox. O mesmo Bronson tem uma ambígua relação com Harvey Stenbaugh, seu braço direito e tenta uma saída menos drástica para o impasse da rendição de seus homens mesmo sabendo que Maddox é impiedoso e inflexível. A chegada de Maddox a Sabbath levou pânico não só aos homens que procurava mas a todos que lá viviam. Ocorre um movimento dos cidadãos que tenciona enfrentar Maddox fazendo uso da desigualdade numérica, mas o Marshall de Bannock os desarma com poucas palavras, com seu olhar e os convence com seu ideal de justiça. A rigor não há homens maus em Sabbath.

Maddox é um personagem incomum nos westerns, mais próximo dos tipos que o cinema criou nos anos 70 como ‘Dirty’ Harry Callahan (Clint Eastwood) e Paul Kersey, o justiceiro interpretado por Charles Bronson em filmes dirigidos pelo mesmo Michael Winner. As mulheres são acidentes na vida desses personagens, assim como para Jared Maddox, representadas em “Mato em Nome da Lei” por Laura Shelby (Sheree North), companheira de uma noite de amor. Laura alimenta a ilusão de acompanhar Maddox mas termina vendo-o assassinar seu marido em fuga no meio da rua principal de Sabbath, com um tiro pelas costas. Essa morte, mais que qualquer outra define Jared Maddox, aquele que não possui nenhum sentimento de piedade e confirma o que lhe disse a própria Laura que ele, Maddox, era um ‘widowmaker’ (fazedor de viúvas). A próxima seria exatamente ela.

“Mato em Nome da Lei” tem um elenco excepcional pois somente atores do porte de Lee J. Cobb e Robert Ryan seriam capazes de transformar protótipos como os personagens do barão de gado (Cobb) ou do xerife submisso (Ryan) em seres complexos. O mesmo pode ser dito das ótimas interpretações de Robert Duvall e Albert Salmi. O filme tem a presença da bonita Sheree North que tão poucas oportunidade teve no cinema, uma delas em “O Último Pistoleiro” (The Shootist), de Don Siegel, além de um magnífico elenco de apoio. A lamentar o desperdício de Joseph Wiseman num papel de menor importância e que não foi melhor desenvolvido. Burt Lancaster domina o filme todo criando mais um personagem brutal na sua incontável galeria de tipos fortes vividos no cinema. Lancaster dá a Jared Maddox o olhar triste de um homem sem emoção e sem alegria. 


Homem que vive para matar. Fortemente influenciado pela estética dos westerns Made-in-Italy, especialmente com o uso por vezes desnecessário de zooms, “Mato em Nome da Lei” tem direção de fotografia de Robert Paynter. Esse cinegrafista se imortalizou por ter sido o responsável pela direção de fotografia no mais famoso clip da história da música que foi “Thriller”, com Michael Jackson. A música é do sempre competente Jerry Fielding, parceiro de Sam Peckinpah em inúmeros filmes, entre eles “Meu Ódio Será Sua Herança”. A magnífica trilogia de faroestes estrelados por Burt Lancaster é completada por “Mato em Nome da Lei”, talvez o menor dos três westerns, mas nunca um western menor.

GALANTE E SANGUINÁRIO

Direção: Delmer Daves
Elenco: Felicia Farr, Glenn Ford, Henry Jones, Leora Dana, Richard Jaeckel, Robert Emhardt, Van Heflin
Duração: 92 min.
Ano: 1957
País: Estados Unidos

Delmer Daves formou juntamente com Anthony Mann, Budd Boeticher e John Sturges o quarteto de diretores responsáveis por a década de 50 ter sido a Década de Ouro do faroeste. Delmer Daves dirigiu seu primeiro western em 1950, que foi o importante “Flechas de Fogo” (Broken Arrow). A seguir dirigiu “Fugindo do Passado” (Returno of the Texan), “Rajadas de Ódio” (Drum Beat), “Ao Despertar da Paixão” (Jubal), “A Última Carroça” (The Last Wagon), “Como Nasce um Bravo” (Cowboy), “O Homem das Terras Bravas” (The Badlanders), “A Árvore dos Enforcados” (The Hanging Tree). Foi porém em 1957 que Delmer Daves realizaria “Galante e Sanguinário” (3:10 to Yuma) aquele que é considerado não só seu melhor western, mas possivelmente o melhor dos 30 filmes que dirigiu em sua carreira. Em 2007 foi filmada uma nova versão de “3:10 to Yuma”, o que deu margem ao relançamento do original de Delmer Daves em cinemas de algumas cidades dos Estados Unidos e em DVD. O fato chamou à atenção e possibilitou que “Galante e Sanguinário”, de há muito considerado um western clássico, fosse reavaliado comparativamente com a recente versão.

Elmore Leonard foi um prolífico escritor bastante aproveitado pelo cinema norte-americano que entre outras de suas histórias filmou “Hombre”, “O Retorno de Valdez” (Valdez is Coming), “Resgate de Bandoleiros” (The Tall T), “Joe Kidd” e “Galante e Sanguinário”, este último roteirizado por Halsted Welles. Neste western o perigoso bandido Ben Wade (Glenn Ford) é capturado na cidade de Bisbee e o xerife local (Ford Rainey) deve levá-lo até Contention, onde há uma estação em que para, às 15:10 o trem com destino a Yuma, onde Wade será julgado pelos seus numerosos crimes. O xerife recruta dois homens completamente despreparados para acompanhar o bandido na arriscada missão pois o bando de Wade interinamente liderado por Charlie Prince (Richard Jaeckel) tentará de todas as formas libertar o chefe. Esses dois homens são Dan Evans (Van Heflin), um rancheiro que precisa desesperadamente de dinheiro para saldar uma dívida e salvar seu rancho e Alex Potter, um bêbado que quer provar ao povo de Bisbee que não é um inútil. Eles farão a escolta de Ben Wade por meros 200 dólares para cada um. Conseguem chegar a Contention com o bandido e após horas de angustiante espera em um hotel são atacados por Charlie Prince e seu bando. A luta termina com Ben Wade sendo embarcado no trem das 3:10 para Yuma.

“Galante e Sanguinário” tem um dos mais emocionantes duelos dos faroestes. Duelo sem armas mas com palavras e manipulação psicológica. Poucas vezes no cinema se viu alguém ser levado aos limites de sua honra e dignidade humana como Dan Evans. O prisioneiro Ben Wade esgota seu arsenal de propostas torpes de suborno. Diante da recusa de Evans, tenta então demolir a resistência do humilde rancheiro mencionando a medíocre vida de sua esposa Alice Evans (Leora Dana) e como ela é merecedora de atenções. Dan Evans, o homem pobre porém íntegro vence o estranho duelo conseguindo converter o malfeitor Wade, senão para o bem, ao menos para que este possibilite sua recompensa maior que é ser reconhecido como homem de verdade pela esposa Alice e pelos filhos. 

O roteiro nitidamente se assemelha a “Matar ou Morrer” quando mostra o homem leal, de fibra e coragem ficar sozinho diante do temido bandido que, numa inversão, não chega num trem mas nele deve partir. A chegada a Contention expõe a covardia dos homens da lei da cidade que, desesperados com a aproximação dos bandidos desaparecem balbuciando suas fraquezas de caráter, remetem diretamente à obra-prima de Fred Zinnemann. E como em “Matar ou Morrer” um relógio cria a mesma atmosfera de agonia e desespero de um homem só. Dan Evans tinha menor motivação que Will Kane para cumprir sua missão, mas tal qual o personagem de Gary Cooper, Evans tem que lutar contra a própria consciência. Coincidentemente o mesmo Van Heflin que foi atormentado em “Os Brutos Também Amam” pelo fascínio que Shane despertava em seu filho e mulher, vê como Dan Evans seus filhos admirarem o insinuante bandido Ben Wade. Mais galante que sanguinário Wade conquista o amor da triste e desesperançosa Emmy (Felicia Farr) e faz Alice, a esposa de Dan Evans, sonhar com o que nunca teve.

Delmer Daves fez de “Galante e Sanguinário” um filme intenso e emocionante. Angustiantemente claustrofóbico nas sequências internas e brilhantemente filmadas nas locações em Sedona e Tucson (Arizona). Charles Lawton Jr. foi o responsável pela cinematografia com o uso insistente de gruas com tomadas ascendentes e posicionamentos inusitados da câmara proporcionando beleza plástica ao filme rodado em preto e branco. O tema musical “3:10 to Yuma” de autoria Ned Washington (letra) e George Duning (música) é excepcionalmente bem arranjado tornando-se vibrante quando necessário ou pungente como quando executado por um singelo violão como na cena entre Wade (Ford) e Emmy (Felicia Farr). Clint Eastwood faria o mesmo em “Os Imperdoáveis” com os acordes do músico brasileiro Laurindo de Almeida. Chamo a atenção do leitor pois há duas versões da canção “3:10 to Yuma”: a que se ouve na abertura de “Galante e Sanguinário” cantada por Frankie Laine (There’s a lonely train called the 3:10 to Yuma...) e uma mais romântica (I want to ride again on the 3:10 to Yuma / That’s where I saw my Love, the girl with the golden hair...). Irrepreensível em sua concepção técnica, se há um pecado em “Galante e Sanguinário” é o final inesperado com a incongruente colaboração de Ben Wade e sua aceitação em ser conduzido a Yuma sem que tenha sido bem desenvolvida essa conversão do bandido. Certo que Ben sabe que cedo obterá a liberdade, mas o final compromete o western de Delmer Daves. 


Van Heflin vs. Glenn Ford, proporcionam um grande duelo de interpretações! O feioso Heflin, que alguém já disse ter uma cabeça que lembra uma batata, comprovou em cada filme o excelente ator que era e está perfeito em “Galante e Sanguinário”. Perfeito e comovente. Glenn Ford, por ter um estilo de interpretação discreto, normalmente era tido como um ator mediano, o que é desmentido por sua brilhante interpretação como Ben Wade. Cínico, frio, quase diabólico na crueldade cortante de suas insinuações. O elenco feminino traz a suave Felicia Farr em seu terceiro western com Delmer Daves (“Ao Despertar da Paixão” e “A Última Carroça” foram os outros), num papel pequeno mas de encantadora simplicidade. A senhora Dan Evans é Leora Dana, atriz pouco conhecida por ter se dedicado mais à TV em sua carreira. Longe de ser uma mulher linda, Leora rouba todas as cenas em que participa com a força de sua expressão e enigmático charme de mulher simples. Completam o elenco principal o engraçado Henry Jones, o explosivo Richard Jaeckel, Robert Emhardt (Mr. Butterfield), Sheridan Comerate (Bob Moons) e Ford Rainey (Marshal de Bisbee). “Galante e Sanguinário” é um magnífico exemplo de como um faroeste pode magnetizar a atenção do espectador com um roteiro em que há mais palavras que ação, assim como nos melhores dramas, com os quais muito se assemelha, sendo um western com nuances de filme noir.

ESTIGMA DA CRUELDADE

Direção: Henry King
Roteiro: Philip Yordan (roteiro), Frank ORourke (romance)
Gênero: Faroeste
Origem: Estados Unidos
Duração: 98 minutos

Henry King não era um diretor de westerns. Em sua extensa carreira King dirigiu perto de 100 longa metragens e somente três deles foram westerns, porém todos eles importantes. O primeiro foi “Jesse James” (com Tyrone Power e Henry Fonda); em 1950 King dirigiu “O Matador” (The Gunfighter), com Gregory Peck. Em 1958 foi a vez de “Estigma da Crueldade” (The Bravados), talvez o menos comentado, mas sem dúvida o mais ousado faroeste de Henry King. Realizado em plena vigência do Código Hays (código de produção cinematográfica que restringia a liberdade criativa), “Estigma da Crueldade” toca abertamente no tema do estupro e mais profundamente em vingança.

Vingança foi um dos temas mais abordados nos faroestes, mas nunca uma vingança foi executada com tão cruel determinação. Budd Boetticher, especialista em westerns que abordaram o assunto vingança, havia realizado dois anos antes “Sete Homens Sem Destino” (Seven Men From Now), em que numericamente a desforra seria mais clamorosa, mas havia no filme de Boetticher uma trama que se sobrepunha ao objetivo do personagem de Randolph Scott. “Estigma da Crueldade” se desenvolve inteiramente na inabalável decisão de um homem que quer ver mortos quatro bandidos. 

E esse homem é justamente o personagem principal, vivido por Gregory Peck, ator que em raros filmes deixou de ser a mais perfeita imagem da integridade e honradez. O roteiro de “Estigma da Crueldade” é de Philip Yordan, a partir de história escrita por Frank O’Rourke (mesmo autor de “A Mule for the Marquesa”, história em que se baseou “Os Profissionais”, com Lee Marvin e Burt Lancaster). Em “Estigma da Crueldade” um estranho chamado Jim Douglass (Gregory Peck) chega à pequena cidade de Rio Arriba para assistir ao enforcamento de quatro foras-da-lei. Com o auxílio de um falso carrasco (Joe De Rita) os bandidos conseguem escapar mas são perseguidos incansavelmente por Douglas. 

Na fuga seqüestram a filha de um comerciante de Rio Arriba e no caminho matam e roubam John Buttler, um velho dono de um pequeno sítio. Douglass alcança os bandidos e os extermina um a um. Primeiro o mestiço Alfonso Parral (Lee Van Cleef). O segundo é Ed Taylor (Albert Salmi). A seguir Douglass mata Bill Zachary (Stephen Boyd). Antes de executar Parral e Zachary, Douglass mostra a eles um relógio ornamentado com a foto de sua mulher. Nenhum deles a reconhece mas mesmo assim são mortos. Parral e Taylor de forma impiedosa. Quando se prepara para matar o índio Lujan (Henry Silva), Douglass descobre que sua esposa não havia sido morta pelos quatro bandidos, mas sim pelo velho Buttler. Este sitiante havia dito a Douglass terem sido os quatro bandidos os autores do estupro e morte da esposa de Jim Douglass. Consciente do engano Douglass retorna a Rio Arriba e tenta justificar seu erro na igreja com a ajuda do padre local.

“Estigma da Crueldade” é um daqueles westerns que até hoje não obtiveram o merecido respeito e destaque, mas é um filme quase perfeito, ainda que tratando de uma temática das mais difíceis que é a justiça escrita por linhas tortas. Jim Douglass (Peck) é um homem de bem mas torna-se um matador movido pelo ódio que dele se apossou ao descobrir que sua esposa fora violentada e morta. Logo de início o espectador desconfia que Douglass foi induzido a erro e isso se dá com a magnífica direção de atores por parte de Henry King, seja nas reações de cada um dos quatro bandidos ou na expressão do próprio Peck. E o filme vai ganhando em emoção na medida em que as mortes vão acontecendo e apenas o resoluto Peck desconhece a verdade dos fatos. 

Os brilhantes e concisos diálogos revelam cada um dos personagens e, como nenhum western, conseguiu desvendou as almas de bandidos, no caso Parral e Lujan (Lee, e Silva). Bill Zachary (Boyd) é o bandido asqueroso na sua excitação que termina no estupro da jovem seqüestrada (Kathleen Gallant). Boyd é o bandido que deixa a certeza que seria sim capaz de ter praticado a atrocidade que lhe é imputada por Douglass. E essa sua faceta nefasta permite que ele cinicamente diga referindo-se ao relógio que lhe é mostrado por Douglass que “a mulher da foto é bem bonita...” Gregory Peck, para muitos um ator limitado, tem um magnífico momento como intérprete na cena em que descobre através de Lujan (Henry Silva) que havia matado pessoas não responsáveis pela morte de sua mulher.

Este western de Henry King possui alguns defeitos que por pouco não comprometem toda a produção. O primeiro deles é o uso excessivo de filtros escuros na cinematografia de Leon Shamroy para criar a impressão de cenas noturnas. “Estigma da Crueldade” foi uma das grandes produções da Fox para 1958 e economizar nesse aspecto de trabalho noturno é injustificável. Shamroy foi um dos mais premiados diretores de fotografia de Hollywood, com 16 indicações para o Oscar, prêmio que ganhou por quatro vezes (“Cleópatra”, “Amar foi Minha Ruína”, “Wilson” e “O Cisne Negro”). 

Por outro lado Leon Shamroy explora magnificamente em “Estigma da Crueldade” as montanhas de St. José Perua, a floresta de Michoacán e um povoado de Jalisco, ambos no México onde o filme foi rodado em Technicolor e Cinemascope. Ainda no aspecto técnico, merece destaque o retumbante tema principal intitulado “The Hunter” e utilizado a cada sequência em que Gregory Peck caça os bandidos. O tom sombrio em outras cenas recebe igualmente brilhante tratamento musical. Vale esclarecer que as composições são de Alfred Newman e de Hugo Friedhofer e não de Lionel Newman como indicado nos créditos do filme. 

O segundo problema de “Estigma da Crueldade” é o excessivo caráter religioso contido no filme, que culmina com a prolongada aparição de um coral composto por duas dúzias ou mais de crianças, todas impecavelmente vestidas, um luxo que Rio Arriba não poderia comportar. O terceiro e pior defeito deste western de Henry King é a presença injustificável da personagem Josefa Velarde interpretada por Joan Collins, atriz totalmente deslocada como mexicana. Somente a necessidade de um interlúdio romântico para efeito de bilheteria explica a presença da bonita Joan Collins. Certamente essas são falhas graves, insuficientes no entanto para quebrar a densidade dramática de “Estigma da Crueldade”.

 Dos quatro bandidos destacam-se o enigmático índio interpretado por Henry Silva e o mestiço vivido por Lee Van Cleef, este numa forte cena clamando por piedade. Gene Evans é o sitiante assassino e Herbert Rudley o xerife Sanchez, ambos bastante bem. Uma curiosidade é a presença de Joe De Rita, que em 1958 passaria a ser o novo ‘Curly Joe’ dos Três Patetas. Gregory Peck repete de certa forma o pistoleiro resignado de “O Matador”, em que foi dirigido pelo mesmo Henry King, porém muito mais amargo em seu incontido desejo de vingança. Como contratados da 20th Century-Fox, Gregory Peck e Henry King trabalharam juntos em outros quatro filmes: “Almas em Chamas”, “David e Betsabá”, “As Neves do Kilimanjaro’ e “O Ídolo de Cristal”, este o penúltimo filme da longa carreira de Henry King. “


terça-feira, 10 de março de 2015

MÃO DA MÚMIA / A TUMBA DA MÚMIA / FANTASMA DA MÚMIA / MALDIÇÃO DA MÚMIA (DOWNLOADS E CRÍTICAS)






DE 4 - FILMES DE MÚMIA
Continuando...clássicos...críticas...downloads...

The Mummy’s Hand

1940 / P&B / EUA / 67 min / Direção: Christy Cabanne / Roteiro: Griffin Jay, Maxwell Shane / Produção: Ben Pivar / Elenco: Dick Foran, Peggy Moran, Wallace Ford, Eduardo Cianelli, George Zucco, Tom Tyler

Oito anos depois do lançamento de A Múmia, a Universal, que continuava insistindo nas sequências dos filmes de seus monstros, resolve trazer o sacerdote egípcio enfaixado novamente às teles em A Mão da Múmia.

Sem o charme do original, sem Karloff no elenco, sem o interesse pela tal maldição da múmia que rondava os jornais em 1932 e principalmente, com a visível decadência e queda de público dos filmes de terror, se comparados a Era de Ouro dos filmes da Universal, A Mão da Múmia se mostra um verdadeiro erro. Talvez a única vantagem que tenha com relação ao seu predecessor, é que aqui realmente o monstro aparece em carne decomposta, osso e ataduras, saindo pelo Egito à fora estrangulando pessoas, ao contrário de apenas um vislumbre, como ocorre logo no comecinho do filme com Karloff.

A velha história aqui se repete. A princesa Ananka, filha de um faraó figurão tem um caso com o sacerdote Kharis. Quanto a garota morre no limiar da sua juventude e beleza, Kharis tenta usar um encantamento profano para ressuscitá-la, e acaba sendo pego com a boca na botija, mumificado e enterrado vivo. 

Três mil anos depois, ele volta à vida através de uma espécie de poção mágica feita com nove folhas de uma planta, preparada por um sacerdote que quer impedir um grupo em expedição, chefiado pelo arqueólogo Steve Banning e seu braço direito, Babe Jenson (uma espécie de clone do Joe Pesci), de encontrar o verdadeiro túmulo onde Ananka está enterrada.

E segue muito climinha de aventura, e umas palhaçadas feitas pelo clone do Joe Pesci junto com o Grande Solvani, um mágico que eles encontram em um bar no Cairo, que vai dar seus últimos trocados para financiar a expedição e ir junto com eles, em troca de uma porcentagem da fortuna encontrada. Sabe, completamente desnecessário. E aí os dois ficam praticando truques da mágica, enquanto a filha do mágico, mais esperta, vai dar em cima de Banning. Chegou até a lembrar um pouco o clima pastelão da refilmagem de A Múmia e a sinergia entre os personagens de Brendan Fraser, Rachel Weisz e John Hannah. Enfim…

O que realmente é interessante em A Mão da Múmia é a criatura em si. Claro, obra do mestre Jack Pierce, mesmo que não creditado. Porque sei lá, é meio frustrante no filme original você não ver o monstro, apenas Karloff em sua forma humana de sacerdote. Aqui pelo menos em seus passos lentos, arrastando ataduras pelo chão, a múmia de Kharis é vista em close, mata seus oponentes sem dó nem piedade com sua força descomunal e até rapta a mocinha para um sacrifício final. 

DOWNLOAD DO FILME COM LEGENDA AQUI

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The Mummy’s Tomb

1942 / EUA / P&B / 60 min / Direção: Harold Young / Roteiro: Griffin Jay, Henry Sucher / Produção: Ben Pivar / Elenco: Dick Foran, John Hubbard, Elyse Knox, George Zucco, Wallace Ford, Thurah Bey, Lon Chaney Jr.
A criatura egípcia enfaixada de 3.000 anos de idade está de volta em A Tumba da Múmia. Mais uma das intermináveis sequências que a Universal criou para seus monstros queridos. E aqui já temos a certeza absoluta que não existiam mais histórias para contar, somente repetindo as mesmas fórmulas e argumentos, só que em situações diferentes, e que Lon Chaney Jr. estava destinado a seguir os passos do pai de verdade e se tornar um novo Homem das Mil Faces.

Isso porque nessa altura do campeonato, Chaney já havia feito o papel principal em O Lobisomem, vivido o monstro de Frankenstein em O Fantasma de Frankenstein e aqui se enrola nas ataduras e interpreta Kharis (que também já foi vivido por Tom Tyler em A Mão da Múmia), a múmia que outrora foi um sacerdote apaixonado pela princesa Ananka. Vale sempre lembrar que a partir de A Mão da Múmia, somos apresentados a um personagem novo, e não Imhotep, a múmia vivida por Karloff no original A Múmia de 1932.

A Tumba da Múmia retoma a trama do filme anterior. Retoma até demais, pois os primeiros 12 minutos do filme são perdidos mostrando exatamente o que aconteceu em A Mão da Múmia. O arqueólogo Stephen Banning, que descobriu o túmulo da princesa Ananka em uma expedição no Egito há 30 anos, está contando a história de sua aventura para seu filho, nora e irmã. 

Isso para logo descobrirmos que a obscura seita dos Sacerdotes de Karnak (ou Arkan, dependendo do filme) não foi destruída, assim como a múmia de Kharis, que seria levada por um sacerdote recém-empossado para os EUA, e por meio da poção criada por meio das nove folhas de Tana, se vingaria de todos da família Banning e dos demais envolvidos na remoção do túmulo de Ananka para a América.
Então a múmia ataca os Estados Unidos, pela primeira vez. Em sua rota de vingança, Kharis acaba por matar Stephen Banning, sua irmã e Babe Hanson, o ajudante de Banning que também esteve presente na expedição original (aquele clone do Joe Pesci lembram-se?). Nessa conta, a próxima vítima é o filho de Stephen, John Banning, médico cético que se recusa a acreditar que uma múmia do antigo Egito está praticando os assassinatos.

Como se não bastasse esse revertério todo, o tal sacerdote, Mehemet Bey, que está conduzindo Kharis em sua vingança, se apaixona pela noiva de John, Isabel Evans, e resolve usar a múmia para sequestrá-la e dar-lhe também a poção com as folhas de tana, para que os dois possam viver para sempre como sacerdotes supremos. Seus planos são interrompidos quando John e uma turba enfurecida com tochas e forcados (solução da Universal para tudo, como já vimos anteriormente nos filmes do monstro de Frankenstein ou do lobisomem) resolve acabar de uma vez por todas com a múmia e a matança.

Na verdade, A Tumba da Múmia é melhor do que A Mão da Múmia. Trazer o monstro para os EUA foi uma decisão acertada, já que não havia mais o que explorar em sua estada nas areias do Cairo. Senão haveria o quê? Outra expedição, com outros arqueólogos, uma nova donzela em perigo? E além do mais, eles souberam utilizar bem o subterfúgio da tal “maldição da múmia”, já que todos os envolvidos na descoberta do túmulo da princesa Ananka foram sendo assassinados. Mas nada que se diga: “Nossa, mas que filme de terror”!

Outro detalhe interessante é que em determinado momento do longa, o Dr. Banning é recrutado para servir na guerra como médico, e fica super feliz com aquilo, assim como sua noiva, dizendo que era algo que sempre queria. Propaganda ideológica militar escancarada, algo muito bem utilizado pelo cinema americano durante aqueles anos da Segunda Guerra Mundial. E após os créditos, aparece uma mensagem para se comprar selos e cartões ao final da sessão de cinema, no intuito de ajudar a financiar os soldados americanos lutando em solo europeu.

DOWNLOAD DO FILME COM LEGENDA AQUI

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The Mummy’s Ghost

1944 / EUA / P&B / 61 min / Direção: Reginald Le Borg / Roteiro: Griffin Jay, Henry Sucher, Brenda Weisberg / Produção: Ben Pivar / Elenco: Lon Chaney Jr., John Carradine, Robert Lowery, Ramsay Ames, Barton MacLane, George Zucco

Não tem mais para onde essa saga de Kharis e a princesa Ananka desenvolver, mas parece que a Universal não se deu conta disso. E que o estúdio outrora inovador estava pegando todo o brilho de seus monstros e jogando no ralo, saturando a plateia até dar no saco. E O Fantasma da Múmia é mais do mesmo.

Querem que eu resuma o filme em um parágrafo? A sociedade secreta e o alto sacerdote de Arkan, Prof. Andoheb (vivido por Geroge Zucco nos outros dois filmes anteriores dessa segunda mitologia da múmia) mais uma vez nomeia outro sacerdote (Yousef Bey, dessa vez, interpretado por John Carradine, figurinha carimbada do cinema de terror), que vai para os EUA, para recuperar o corpo da princesa Ananka e traz mais uma vez a múmia de Kharis à vida com a poção preparada com as nove folhas de tana. A múmia sai se arrastando com suas ataduras por aí e estrangulando a galera de uma universidade. Fim.

É isso. Praticamente a mesma trama de A Tumba da Múmia, misturada com A Mão da Múmia e com toques de A Múmia. Ainda há tempo no roteiro para Amina Mansouri, uma garota egípcia que na verdade é a encarnação de Ananka, raptada pelo sacerdote para um ritual milenar, a fim de trazer de volta a princesa à vida. Mas a coisa está tão feia, que Yousef Bey resolve furar os olhos da múmia e quer a princesa para ele. 

Vê se pode uma coisa dessas? Kharis está há três mil anos nessa vidinha miserável, mumificado, enrolado em gaze, por causa de Ananka, é trazido à vida para ser pau mandando de um bando de egípcios loucos de uma sociedade secreta e nunca mais conseguiu ficar com sua amada, para chegar um sacerdote e ainda querer roubar a encarnação da princesa dele?

Claro que a múmia fica emputecida e vai partir para o pau com o Yousef Bey. Chega a ser engraçado o ataque de ciúmes da múmia quando descobre o plano talarico do sacerdote. Mas vale sempre salientar que essa ideia de uma descendente da princesa ser usada em um sacrifício para trazer a tetra-avó de volta a vida foi o mesmo utilizado em A Múmia original, de 1932, com Boris Karloff fazendo o papel de Imhotep, que queria trazer à vida seu amor milenar, a princesa Ankh-es-em-amon.

O personagem de George Zucco já está gagá nesse filme, tremendo, enquanto faz de novo o discurso e juramento que já fez pros outros sacerdotes patetas que não conseguiram levar seu plano adiante (mas ele ainda insiste). E mais uma vez Chaney vive a múmia esfarrapada, sem acrescentar absolutamente nada mais ao personagem (afinal que complexidade artística existe em uma múmia mofada?) e principalmente ao seu currículo como ator. Maquiagem de Jack Pierce incrível mais uma vez, diga-se de passagem. E se você pensa que a maldição do sarcófago chegou ao fim, esteja pronto para mais um filme lançado no mesmo ano, A Maldição da Múmia.

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The Mummy’s Curse

1944 / EUA / P&B / 62 min / Direção: Leslie Goodwins / Roteiro: Bernard Schubert, Leon Abrams e Dwight V. Babcock (história original) / Produção: Oliver Drake (Produtor Associado), Ben Pivar (Produtor Executivo) / Elenco: Lon Chaney Jr., Peter Coe, Virgina Christine, Kay Harding, Dennis Moore, Martin Kosleck

“Véi”, na boa, quem aguenta dois filmes da múmia lançados no mesmo ano? 1944 foi o ano da criatura egípcia enfaixada da Universal. Lon Chaney Jr. vestiu suas ataduras aqui em A Maldição da Múmia, lançado em dezembro e O Fantasma da Múmia, lançado em julho.

Bom, passando 25 anos depois do filme anterior, A Maldição da Múmia retoma a velha e saturada história de Kharis e da princesa Ananka, mais uma vez contada nos mínimos detalhes em flashbacks aqui nessa fita. Só que dessa vez a trama se passa nos pântanos da Louisiana. Afinal, no último longa, Kharis conseguiu resgatar o corpo da sua amada milenar, e acuado pela população, acabou entrando no pântano, levando sua alma e da princesa para o descanso eterno.

Ledo engano. Mais uma vez um pentelho de um egípcio alto sacerdote da ordem de Arkahn, dessa vez o Dr. Ilzor Zandaab, resolve trazer a múmia de volta a vida usando a poção feita através das nove folhas de tana (que era uma árvore extinta desde o Egito Antigo, que não sei de onde eles continuam encontrando tantas dessas folhas depois de tanto tempo, mas enfim). A intenção de Zandaab, ajudado pelo seu capanga, Ragheb, é que a múmia encontre o corpo da princesa e por fim, levá-los de volta para o Egito.

Kharis vai tocar o terror no bayou, assustando e matando estrangulados os cajuns que trabalham na drenagem do pântano, sob as ordens do Major Pat Walsh. Ainda há na trama as figuras do Dr. James Halsey, que trabalha no Museu Scripps e tem interesse em encontrar as múmias para levá-las até o museu, e Betty, secretária e sobrinha de Walsh, que acaba se transformando no par romântico do Dr. Halsey.

Além disso, a princesa Ananka volta à vida, em uma cena simplesmente fantástica, onde ela começa a sair da terra e caminhar desorientada e devagar, como veríamos anos mais tarde em muitos dos filmes de zumbi que estamos acostumados hoje em dia. Só que Ananka em sua forma humana sofre de amnésia e não se lembra nem do Egito antigo e nem de Kharis, por quem sente apenas pavor e não mais aquele amor de outrora. Kharis a rapta, e Betty pede ajuda a Ragheb para encontrá-la. Ragheb, enfeitiçado pelo seu rabo de saia, então ajuda a moça, traindo o seu juramento para os sacerdotes de Arkahn, utilizando o seguinte argumento para se explicar a Zandaab: “mestre, eu sou de carne e osso”. Sinceridade total.

Bom, daí blá blá blá, whiskas sachê, o Dr. Hasley confronta Zandabb, e Kharis é derrotado de uma vez por todas, enterrado nos escombros. E Ananka que tinha voltado à vida, volta a se transformar em uma múmia também, e finalmente a Universal vai dar uma paz para as criaturas que fazem mais de 3.000 anos que estão sendo aporrinhados por uma sociedade secreta egípcia que não tem mais o que fazer. E para nós também, por favor.

Mas o mais interessante de tudo, revendo todos os filmes da franquia, é o universo paralelo maluco de tempo e espaço em que a saga da múmia está alocada na cabeça dos roteiristas, produtores e diretores da Universal. Porque, pelo amor, são muitos furos grotescos de continuidade. Saca só: A Mão da Múmia se passa em 1940. A Tumba da Múmia se passa 30 anos depois (segundo o próprio filme), então em 1970. O Fantasma da Múmia também se passa no mesmo ano. Já A Maldição da Múmia, esse aqui, se passa 25 anos depois do último filme. Então quer dizer que o ano é 1995???? Fora que no filme anterior, a ação se passa na Nova Inglaterra. Como diabos os cadáveres de Kharis e Ananka foram parar no pântano da Louisiana, mais de 2.400km de distância? Vai entender essa gente…

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sábado, 7 de março de 2015

CRIMES DA RUA MORGUE / CASA SINISTRA/ GATO PRETO / RAIO INVISÍVEL (CRÍTICAS E DOWNLOAD)




DE 4 - FILMES DE HORROR

A Idéia da sessão e proporcionar críticas de 4 filmes clássicos de horror aos fãs do gênero. E para apreciar melhor a matéria, poderá fazer o download dos filmes. Para começar, quatro obras primas do cinemão anos 30.

Murders in the Rue Morgue

1932 / EUA / P&B / 61 min / Direção: Robert Florey / Roteiro: Robert Florey (adaptação), Tom Reed, Dale Van Every (baseado na obra de Edgar Allan Poe) / Produção: Carl Laemmle Jr. / Elenco: Bela Lugosi, Sidney Fox, Leon Waycoff, Bert Roach, Betty Ross Clarke 

Além do já famoso ciclo de monstros, a Universal foi responsável também por uma série de adaptações livres dos contos de Edgar Allan Poe para o cinema, todas elas com Bela Lugosi no elenco, porém sem o mesmo brilho e assertividade que a parceira entre Roger Corman e Vincent Price nos anos 60. O primeiro dessa safra foi Os Crimes da Rua Morgue.

E posso dizer com toda convicção que Os Crimes da Rua Morgue é o mais fraquinho de todos (Lugosi ainda estrelaria O Gato Preto e O Corvo, ambos junto de Boris Karloff). Bom, começa pelo fato que sou fã confesso de Edgar Allan Poe, mas o conto que deu origem a esse filme nunca me desceu direito. Afinal, um orangotango cometeu o assassinato? 

Eu sei, eu sei sobre a importância do conto para as história policiais modernas, e que se não fosse Os Crimes da Rua Morgue, provavelmente Sir Artur Conan Doyle nunca teria criado o famosíssimo detetive Sherlock Holmes. Mas um orangotango? Bom, dá para baixar o conto para ler aqui.

Enfim, aqui a adaptação livre troca de símio, um orangotango por um gorila chamado Erik, que na verdade é um chimpanzé, mascote de estimação de um cientista louco e maníaco chamado Dr. Mirakle, interpretado canastrissimamente (como de costume, por sinal), por Bela Lugosi. Mirakle tenta colocar na cabeça da população da Paris do século XIX a teoria da evolução das espécies de Darwin, em uma feira de rua, dissertando que viemos dos primatas e que Erik é praticamente humano. Claro que foi um ultraje.

Determinado em provar sua teoria, Mirakle começa a raptar prostituas para suas experiências, de misturar sangue humano com sangue macaco, para ver o que acontece. Isso chama a atenção de Pierre Dupin, que no livro é um homem inteligente, brilhante e com um poderoso senso de dedução que resolve o crime, e aqui só é um cara apaixonado pela doce Camille L’Espanaye, estudante de medicina, pé rapado que vive com um companheiro de quarto insuportável que faz às vezes de mulher preocupada, que começa a suspeitar de Mirakle ser o responsável pelas mortes.

Como seria impossível manter um longa metragem utilizando apenas o conceito original do livro, o ataque do gorila / chimpanzé fica para o terceiro ato. Mirakle apaixonado pela moça, manda o macaco raptá-la do seu quarto, colocando a polícia de Paris e Dupin em seu encalço, apenas depois de ser considerado o principal suspeito. Tudo bem que estamos em 1932, mas o símio é realmente tosco. 


Misturando imagens reais com a de um sujeito vestido um traje peludo de macaco (ao melhor estilo Congo), o truque da edição não funciona nem um pouco bem, e se a intenção era chocar, acabou se tornando bem cômico e ridículo. Apesar de haver muita limitação de efeitos visuais na época e o responsável pela maquiagem ser o brilhante Jack Pierce, Frankenstein, O Médico e o Monstro e A Ilha das Almas Selvagens, por exemplo, já haviam nos apresentado um trabalho muito mais satisfatório 





The Old Dark House

1932 / EUA / P&B / 72 min / Direção: James Whale / Roteiro: Benn W. Levy (baseado na obra de J.B. Priestly)/ Produção: Carl Laemmle Jr. / Elenco: Boris Karloff, Melvyn Douglas, Charles Laughton, Lilian Bond, Ernest Thesiger, Eva Moore
A Casa Sinistra é a empreitada da Universal na típica história gótica sobre casarões vitorianos, logo após o lançamento da sua primeira e bem sucedida leva de filmes de monstros: Drácula e Frankenstein, e alguns meses antes de A Múmia.

Carl Lammle Jr. mas uma vez dá o controle do barco para o trio responsável pelo sucesso de Frankenstein no ano anterior: o diretor James Whale, o astro Boris Karloff e o maquiador Jack Pierce, para criar todo o clima de um filme com a autêntica parafernália gótica para meter medo: uma mansão, uma noite de tempestade, portas e janelas batendo, cortinas esvoaçantes, corredores mal iluminados, um grupo de viajantes recebidos por uma família estranha e um sinistro mordomo.

Misturando terror com doses de humor e esquisitices como só Whale era capaz de fazer (vide os seus próximos trabalhos: O Homem Invisível e A Noiva de Frankenstein), A Casa Sinistra entrega seus elementos do gênero de forma séria, porém intercalando-os com diálogos afiados, situações de pastiche, lutas atrapalhadas e comportamento absurdo da maioria de seus personagens.

Três viajantes, Penderel, Phillip Waverton e sua esposa Margaret (interpretado por Gloria Stuart, a velhinha de Titanic) estão passando pelo diabo na estrada durante uma intensa tempestade. Ao escaparem por pouco de um deslizamento de terra, eles param na estranha mansão para poder se abrigar e esperar a fúria da natureza se acalmar um pouco. Lá, são recepcionados de forma bem distinta pela outrora próspera e agora decadente família Femm. Horace, é o irmão acolhedor, solícito e medroso, enquanto sua irmã Rebecca é uma megera antipática, semi-surda, conservadora e carola que não para de tagarelar. Além dos dois anfitriões, há Morgan, o mordomo mudo interpretado por Karloff.

Não sei se Lammle e o pessoal da Universal não acreditavam no potencial de diálogo de Karloff, porque mais uma vez, como em Frankenstein, ele faz um personagem que não fala uma palavra sequer o filme inteiro, soltando apenas alguns grunhidos inteligíveis. Mas apesar do papel secundário, a equipe de maquiagem de Jack Pierce mais uma vez caprichou e transformou Karloff num ser feioso, carrancudo e com o rosto cheio de deformações e cicatrizes.

Pois bem, acontece que os Femm escondem um terrível segredo familiar dentro daquele casarão, que envolve o patriarca da família, o velho Roderick Femm que vive inválido e enclausurado no último andar da casa, e Saul, o irmão mais velho trancafiado. Morgan também tem um sério problema com o alcoolismo e torna-se extremamente violento e perigoso quando enche a cara, coisa que faz bem naquela noite. Fora isso mais dois visitantes chegam à casa também para se protegerem da tormenta, o casal William “Bill” Poterhouse e Gladys Perkins (que usa um nome falso no começo, sabe-se lá porque).

Só que o que fica devendo em A Casa Sinistra são cenas realmente de terror genuíno em uma trama subaproveitada, pois quando você descobre o verdadeiro segredo que vive naquela casa, chega até ser decepcionante, já que Whale vai criando um clima bem misterioso que vai prendendo sua atenção ao filme, mesmo em meio a situações completamente inverossímeis e estapafúrdias, como o desconcertante jantar ou quando Gladys e Penderel saem no meio da tempestade para tomar uma dose de uísque no carro, e voltam perdidamente apaixonados, com ele decidindo pedi-la em casamento e ela dispensando Bill na maior cara de pau, sendo que o corno leva na maior esportiva e ainda faz graça com isso. Oi? 

Morgan e Rebecca também são dois personagens mal aproveitados, que poderiam render muito mais à trama, assim como Saul, se suas verdadeiras motivações fossem mais bem explanadas bem como sua insanidade. E ao final, com a noite que parecia sem fim terminando e os raios de sol adentrando a casa, tudo volta ao normal como se nada tivesse acontecido. Mas há de se concordar que a direção de Whale é precisa, além dele ser um excelente diretor de atores e especialista em ludibriar o espectador, entregando algo completamente não usual e fora do inesperado. Uma curiosidade é que A Casa Sinistra ficou fora de circulação muito tempo, pois todas suas cópias haviam se perdido. Somente vários anos depois, na década de 60, que o diretor Curtis Harrington encontrou seus negativos, salvando o filme do esquecimento.



The Black Cat

1934 / EUA / P&B / 65 min / Direção: Edgar G. Ulmer / Roteiro: Peter Ruric (inspirado pela obra de Edgar Allan Poe) / Produção: Carl Laemmle Jr., E.M. Asher (não creditados) / Elenco: Boris Karloff, Bela Lugosi, David Manners, Julie Bishop

Carl Lammle e a Universal proporcionam em O Gato Preto, um deleite para os fãs dos filmes de terror: a junção entre Bela Lugosi, Boris Karloff e Edgar Allan Poe.

Esse é o primeiro e mais célebre filme em que os dois maiores astros do cinema de horror daqueles tempos contracenam juntos (ainda repetiriam a dose em O Corvo, O Raio Invisível e O Filho de Frankenstein). Também o que apresenta uma das tramas mais sinistras em seus temas e implicações.

Se bem que a história não tem absolutamente nada a ver com o conto de Poe, apenas em seu conceito, e mais tarde foi admitido pelo próprio diretor, Edgar G. Ulmer, que isso foi uma ideia do estudio apenas para efeitos comerciais. Mas o enredo traz um trama interessantíssima que envolve satanismo, vingança, necrofilia e traição, tudo isso regado com a atuação impecável da dupla, no filme mais esquisito e perverso da Universal.

O inocente casal, bem típico dos filmes de terror, Peter e Joan Allison (respectivamente interpretados por David Manners e Julie Bishop), que inspiraram o casal do filme The Rocky Horror Picture Show, encontram com o enigmático e sofrido Dr. Vitus Werdegast (Lugosi) no trem durante sua viagem de lua de mel pela Hungria. 

Como acabam dividindo a cabine com Werdegast, eles descobrem queo doutor na verdade está voltando para a cidade que defendeu durante a guerra, após longos 15 anos como prisioneiro, e assim poder visitar um antigo amigo, o arquiteto Hjalmar Poelzig (Karloff). Ao descerem do trem, pegam um ônibus em meio a uma tremenda tempestade e sofrem um acidente, que resulta na morte do motorista, ao perder o controle do veículo na estrada enlameada.

A situação acaba transformando o casal, junto de Werdegast, em hóspedes forçados no excêntrico castelo modernista de Poelzig, construído sobre a cova coletiva dos soldados que ele mesmo traiu durante a Primeira Guerra. Aos poucos, entende-se que Werdegast está lá na verdade em busca de vingança, que vem sendo elaborada desde que foi preso, deixando mulher e filha nas mãos do rival. 

No desenrolar da história, Werdegast descobre que Poelzig tem um inusitado hobby: colecionar mulheres mortas mumificadas em redomas de vidro (incluindo sua falecida esposa) e que o personagem de Karloff é sacerdote de um bizarro culto satânico, sendo que seu livro de cabeceira é “Os Rituais de Lúcifer”.

A morte é o fio condutor da fita e tudo gira em torno dela. É a obsessão insana de um homem em tentar preservar a vida, custe o que custar, mesmo que isso envolva sacrifícios e satanismo. E a obsessão de outro homem, vítima de traição, onde tudo que lhe é mais querido foi tirado, vivendo apenas um função do acerto de contas, ou seja, em busca de mais morte. 

E é engraçado você ver o embate e os diálogos afiados entre Lugosi e Karloff e você parece que sente a eletricidade entre os dois, como se pudéssemos cortar o ar com uma navalha de tamanha tensão, já que no fundo sabemos que havia sim uma richa entre os dois atores.

O Gato Preto não é um filme fácil de assistir, isso eu tenho que admitir, e passa um pouco do ponto no quesito estranho, sem se entender as verdadeiras intenções dos personagens até o terceiro ato. Isso sem contar a fobia esdrúxula de Werdegast por gatos, sem a menor explicação. 

Na verdade a presença do tal gato preto do título do filme é praticamente alegórica e sem necessidade (talvez a única forma encontrada de utilizar o bichano e explorar o efeito mercadológico de levar algo com o nome de Poe para o cinema). Mas apesar dos apesares, o duelo entre o calculista Lugosi e o cínico Karloff é simplesmente fantástico. O que já vale o filme e seu lugar na lista.








The Invisible Ray

1936 / P&B / EUA / Direção: Lambert Hillyer / Roteiro: John Colton, Howard Higgn e Douglas Hodges (história original) / Produção: Edmund Grainger, Fred S. Meyer (produtor executivo) / Elenco: Boris Karloff, Bela Lugosi, Frances Drake, Frank Lawton, Violet Kemble Cooper

Mais um deleite para os fãs de filmes de terror e ficção-científica, com a já clássica disputa entre Lugosi e Karloff, outra vez um colírio para os nosso olhos. Dessa vez, em O Raio Invisível, os dois maiores astros do cinema de terror de seu tempo são dois cientistas se engalfinhando, destilando diálogos e atuações fantásticas e incendiando mais uma vez a eterna discussão do choque de egos entre os dois e qual deles era o principal astro do gênero (eu continuo achando Karloff muito mais ator que Lugosi).

Além disso, O Raio Invisível nos traz uma trama para lá de maluca, mostrando que na década de 30 os roteiristas de Hollywood tinham umas ideias bem bizarras que desafiavam demais o intelecto do espectador, e se você assisti-las hoje em dia, deve pensar o que diabos eles estavam usando para pensar em coisas tão estapafúrdias.

Nessa trama, Karloff é o brilhante cientista Dr. Janos Rukh, que faz uma mirabolante descoberta, através de um imenso telescópio, que na verdade é uma espécie de máquina do tempo, onde consegue captar imagens do passado na Nebulosa de Andrômeda, que ficam gravadas como um eco pelo tempo espaço contínuo e transmitir essa imagem em uma gigante tela, descobrindo assim que há milhares de anos, um meteoro caiu em algum lugar perdido da África, trazendo consigo uma poderosa nova forma de matéria.

Considerado como um rebelde e frequentemente desacreditado pela sociedade científica britânica, o Dr. Rukh convida uma série de pessoas para serem testemunhas dessa experiência, entre eles os renomados cientistas Sir Francis Stevens e o Dr. Felix Benet (interpretado por Lugosi). Maravilhados com a descoberta, os Drs. Stevens e Benet, que é um das maiores autoridades em química orgânica e astro química do mundo, partem em uma expedição para a África, junto com a infeliz esposa de Janos, Diane Rukh, e a esposa de Francis, Arabella Stevens, além do jovem Ronald Drake, afim de encontrar esse meteoro perdido.

Rukh separa-se da expedição principal e encontra o local da queda, auxiliado pelos nativos, e junto com ele, encontra também um elemento químico desconhecido chamado Radium X, substância poderosíssima que ao mesmo tempo que é capaz de ser usado para destruir, também pode ser utilizado para curar diversos tipos de doença. Só que Rukh acaba sendo envenenado pela radiação do novo elemento e adquire uma bizarra fosforescência que o faz brilhar no escuro, e um toque mortal.

O cientista recorre então a ajuda do Dr. Benet para desenvolver um antídoto para controlar o excesso de radiação, a partir de uma amostra do Radium X, e trazê-lo de volta ao normal. Porém esse antídoto não é definitivo e deve ser usado constantemente. Mas nada poderia ser feito quanto a um dos principais efeitos colaterais da exposição ao elemento. 

A mente de Rukh começaria a ser afetada, levando-o a loucura. E não dá outra. Preocupados com o poder do Radium X e com o novo sumiço de Rukh que voltou ao acampamento, os Drs. Steves e Benet decidem que o elemento é perigoso demais para ficar nas mãos de uma só pessoa, e resolvem voltar para Paris no intuito de apresenta-lo em um congresso científico, creditando Rukh como o descobridor da substância.

Só que tomado pelo ódio e os efeitos nocivos da radiação, Rukh acredita estar sendo roubado pelos outros cientistas, e como se não bastasse, sua esposa, desprezada, o abandona, e casa-se com Drake (afinal, já diz o velho ditado, que quem não dá assistência abre para a concorrência). É o suficiente para Rukh começar seu maligno plano de vingança e utilizar o mortal poder do Radium X, inclusive aquele em seu toque, para destruir todos os envolvidos, incluindo aí o personagem de Lugosi e sua ex-esposa.

Dirigido por Lambert Hillyer, o mesmo de A Filha de Drácula, O Raio Invisível é um dos percussores do cinema de ficção-científica que seria visto comumente em boa parte da década de 50 e início da década de 60, além do personagem de Karloff perdurar como grande influência para o arquétipo do cientista louco que perde a cabeça graças as suas terríveis descobertas científicas, geralmente dotadas de um destruidor poder mortal, e que de alguma forma, acabar tornando-se uma ameaça para a sociedade, e até para o mundo, por que não? 

Nisso, Karloff e Lugosi contracenam uma verdadeira antítese de papeis, um obcecado e cego pela vingança, e o outro benevolente que nunca deixou de creditar Rukh pela descoberta. Mas claro que o papel de Karloff é muito maior e ele é o verdadeiro protagonista de O Raio Invisível, sendo Lugosi um coadjuvante de luxo. E mais uma vez, ao meu ver, Boris engole Bela em cena.

Com o sucesso de O Raio Invisível, a Universal que não é boba nem nada, queria já aproveitar a onda e fazer um filme parecido, com a dupla novamente, trocando um homem radioativo por uma criatura elétrica, também vítima de uma experiência científica, baseado na história The Electric Man. Porém o projeto foi abortado quando a Universal começou a perceber o crescente desinteresse do público no gênero, devido ao desgaste das produções já do final da década de 30. Mas esse projeto foi resgatado em 1940 e filmado com o título de Man Made Monster, trazendo a dupla Lionel Atwill e Lon Chaney Jr. nos papeis que seriam de Karloff e Lugosi.




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