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sábado, 24 de janeiro de 2015

MATAR OU MORRER (HIGH NOON, 1952) ANÁLISE CRÍTICA


Os mais importantes títulos da magnífica filmografia de Fred Zinnemann são “Matar ou Morrer” (High Noon), “A Um Passo da Eternidade” (From Here to Eternity) e “O Homem que Não Vendeu sua Alma” (A Man for All Seasons). Todos esses três filmes têm a mesma temática que é a tomada de consciência por parte de homens diante de uma realidade que os acua. Sir Thomas More (Paul Scofield), Robert E. Lee Prewitt (Montgomery Clift) e Will Kane (Gary Cooper) estão entre os grandes personagens de filmes de todos os tempos, imortalizados como exemplos de dignidade e coragem nesses filmes de Zinnemann. O austríaco de nascimento Fred Zinnemann se viu obrigado a deixar seu país com a ascensão do nazismo e um pouco de sua trajetória pessoal está presente nos filmes acima referidos. Esses fatos merecem ser lembrados porque “Matar ou Morrer” é geralmente citado como uma película que objetivava, através do roteiro de Carl Foreman, apenas responder ao macarthismo que colocou Foreman na lista negra de Hollywood. John Wayne, um dos mais exaltados anticomunistas de Hollywood dizia que um filme vergonhoso como “Matar ou Morrer” jamais poderia ter sido produzido em seu país e completou afirmando que se orgulhava de ter ajudado a fazer Carl Foreman ‘correr’ dos Estados Unidos. A visão politicamente tacanha de John Wayne o impediu de perceber que o western de Fred Zinnemann era um dos mais significativos filmes não só daquele período negro da história de Hollywood, mas da própria história do cinema.

Decisão arriscada - Carl Foreman escreveu o roteiro de “High Noon” a partir de uma história de autoria de John W. Cunningham intitulada “The Tin Star” (nenhuma relação com o western "O Homem dos Olhos Frios" de Anthony Mann estrelado por Henry Fonda). Na adaptação de Foreman, numa manhã tranquila Will Kane (Gary Cooper) o xerife da pequena cidade de Hadleyville contrai matrimônio com a jovem Amy Fowler (Grace Kelly) e deixa o cargo partindo para uma nova vida. Após a cerimônia, antes da partida do casal, chega a notícia que Frank Miller (Ian MacDonald), um bandido preso por Kane e condenado pela Justiça foi libertado e deve chegar a Hadleyville no trem que para na cidade ao meio-dia. Miller é aguardado na estação por seu irmão Ben Miller (Sheb Wooley) e pelos amigos malfeitores Jack Colby (Lee Van Cleef) e Jim Pierce (Robert Wilke). Contrariando a esposa e o desejo de toda a comunidade, Will Kane decide permanecer e enfrentar o quarteto de bandidos. Conta para isso com a ajuda de amigos, os homens da cidade que conseguiu pacificar, mas um a um todos seus pretensos amigos, por razões diversas, se recusam a ajudar Will Kane que se vê sozinho. Helen Ramírez (Katy Jurado), uma mexicana que foi amante de Frank Miller e também de Will Kane, convence Amy Fowler a permanecer ao lado do marido na missão aparentemente suicida de se confrontar com o sedento por vingança Frank Miller. A acovardada população de Hadleyville assiste Will Kane, secundado pela esposa Amy, exterminar o bando e partir deixando para trás o medo, a frouxidão moral e mais que tudo a ingratidão de Hadleyville.

Estupenda direção de atores - Fred Zinnemann é tido como um diretor pouco inventivo, narrando histórias de forma linear, cinematograficamente acadêmica. “Matar ou Morrer” é o oposto de tudo isso pois seus 85 minutos são conduzidos inteiramente sob tensão, resultado do excepcional trabalho de edição do montador Elmo Williams, da fotografia semidocumentária de Floyd Crosby e da música de Dimitri Tiomkin. A Zinnemann deve-se a incrível comiseração extraída do personagem principal Will Kane através da angustiante interpretação de Gary Cooper. Will Kane é o personagem principal, mas de igual importância aos personagens femininos Amy Fowler e Helen Ramírez, especialmente esta última. Às duas mulheres cabem as ações decisivas de “Matar ou Morrer”, pois é a Señora Ramírez quem diz verdades e incute dose de estoicismo em Kane e a força que a frágil Amy Fowler precisa encontrar no apoio ao marido. E Amy, por duas vezes se faz presente no tiroteio final, primeiro ao alvejar o bandido Pierce pelas costas e depois ao enfiar as unhas nos olhos de Frank Miller quando este a usava como escudo, possibilitando a Kane o disparo final e certeiro contra o celerado. Conceituado diretor de atores (seis artistas dirigidos por Zinnemann receberam Oscars de interpretação [Gary Cooper, Frank Sinatra, Donna Reed, Jason Robards, Paul Scofield e Vanessa Redgrave] e outros 12 receberam indicações para esse prêmio), o elenco de “Matar ou Morrer” tem uma coesão interpretativa raramente vista em um western. Tenso do início ao fim, toda sorte de sentimentos são expressos pelo vasto e magnífico elenco dirigido por Zinnemann, como que a comprovar que o filme é sim dele, contando com os colaboradores citados.

Alegoria ao macarthismo - “Matar ou Morrer” foi rodado em 1952, quando mais grassava a odiosa ação do senador Joseph McCarthy contra a comunidade cinematográfica norte-americana. Além de escrever o roteiro, Foreman que foi um dos perseguidos pela sanha brutal do macarthismo, atuou como produtor executivo desse western. Apesar de todos os esforços do produtor Stanley Kramer para reduzir o teor recriminatório do enredo, “Matar ou Morrer” é uma alegoria perfeita do que ocorreu com aqueles vitimados pela perseguição e que se viram, como o próprio Foreman, expurgados de Hollywood. À parte, no entanto, a mensagem política da história, o western de Zinnemann é um filme perfeito que envolve o espectador do princípio ao fim, ao longo de sua relativamente curta duração. O preto e branco das imagens acentua a dramaticidade e Will Kane, com suas vestes sombrias, é um ser fadado a morrer. Em determinado momento o constrangido Kane diz ao barbeiro-agente funerário que ele pode continuar com seu trabalho (de preparar caixões de defunto) interrompido por um instante. “Matar ou Morrer” começa ameaçador com a imagem de Lee Van Cleef (por si só uma ameaça) e com seu encontro com demais asseclas. Segue-se o único momento alegre da história com o casamento seguido do congraçamento entre nubentes e testemunhas. Daí para a frente o que o espectador vê é um filme depressivo, um álbum da pusilanimidade humana.

A simplicidade musical de Tiomkin - A ideia inicial da produção era que a ação de “Matar ou Morrer” se passasse em tempo real, o que ocorre até a chegada do trem a Hadleyville. Para marcar o tempo inúmeros relógios foram colocados nos diversos cenários, de forma pouco discreta (há relógios em toda parte) mas não intrusiva. Porém o grande achado do western de Zinnemann foi o uso da trilha sonora musical criada por Dimitri Tiomkin. O ator-cantor Tex Ritter anuncia ao cantar os versos da “Ballad of High Noon” (Do not forsake me, oh my darling...) o que vai acontecer no decorrer do filme e o persistente som de percussão batendo no ritmo do trotar de um cavalo cria uma preciosa tensão sonora. Tiomkin fugiu do tom pomposo ainda tão comum nos anos 50 nas trilhas sonoras mesmo de westerns e sua criação musical está em harmonia com a simplicidade de “Matar ou Morrer”. Rodado em 28 dias, sete deles dedicados aos ensaios do elenco, este western foi visivelmente inspirado em “O Matador” (The Gunfighter), de Henry King, realizado dois anos antes. Gregory Peck foi o primeiro nome lembrado para interpretar Will Kane, mas não aceitou justamente pela semelhança do personagem com o Jimmy Ringo de “O Matador”. “Matar ou Morrer” custou modestos 750 mil dólares, 300 mil deles para pagar o salário de Gary Cooper. Por sua interpretação como Will Kane, Cooper recebeu o Oscar de Melhor Ator de 1952, não podendo no entanto comparecer à cerimônia de entrega e sendo substituído por John Wayne. Ao receber o prêmio, Wayne fez um pequeno discurso dizendo que gostaria de ter interpretado Will Kane pois assim poderia fazer o personagem de forma diferente e mudar o filme do qual nunca escondeu que detestara.

A expressão sofrida de Gary Cooper - Howard Hawks, outro expoente da direita de Hollywood, declarou tempos depois: “Eu filmei ‘Rio Bravo’ (Onde Começa o Inferno) porque não gostei de ‘High Noon’, assim como John Wayne também não gostou. Não creio que um bom xerife deva ficar dando voltas na cidade como um frangote pedindo ajuda a qualquer um. E quem é que salva esse xerife? Sua religiosa esposa. Essa não é minha concepção de um bom western.” Do que Hawks e Wayne não gostaram foi de “Matar ou Morrer” expor o lado soturno da América que eles tanto amavam. Curiosamente, os únicos habitantes de Hadleyville que se propuseram a ajudar Will Kane foram um velho alcoólatra (e cego) e um adolescente; na obra-prima “Rio Bravo” há também personagens de velho, bêbado e jovem. Gary Cooper, outro ator defensor do macarthismo foi bastante cobrado por ter participado de um filme como “Matar ou Morrer”. Mais ainda por ter sido um trabalho fisicamente desgastante para o ator então com 50 anos de idade. Cooper filmou mesmo sofrendo com uma úlcera estomacal e uma hérnia de disco que lhe dificultava os movimentos. Mesmo assim Gary Cooper não utilizou dublê na feroz luta que Will Kane trava no celeiro contra o auxiliar de xerife Harvey Pell (Lloyd Bridges). A expressão cansada e triste de Gary Cooper não foi resultado apenas de sua capacidade interpretativa, mas também de suas precárias condições físicas.

O brilho de Katy Jurado - O grande destaque de “Matar ou Morrer” fica para a atriz mexicana Katy Jurado que criou o mais digno e forte personagem feminino latino de um faroeste, distante dos estereótipos que mostravam latinos de modo caricato. A esplêndida atuação de Katy Jurado (esquecida pelo Oscar) foi premiada com o Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante. Nesse mesmo ano ela recebeu também o Ariel de Prata (prêmio mexicano correspondente ao Oscar) como Melhor Atriz por sua atuação em “El Bruto”, de Luís Buñuel, rodado no México. O elenco de apoio de “Matar ou Morrer” reúne grande número de excelentes atores em papéis curtos mas todos eles expressivos. Destoa apenas Thomas Mitchell, excessivo em seu discurso dentro da igreja. Sergio Leone homenageou “Matar ou Morrer” recriando a sequência inicial da espera pelo trem em “Era Uma Vez no Oeste” (C’Era Uma Volta Il West) que tem Jack Elam em longa tomada de câmara, ao contrário da cena curta que o ator participa no filme de Zinnemann. Leone não se esqueceu também da gaita que Lee Van Cleef toca enquanto aguarda a chegada do trem motivando o diretor italiano a criar o ‘Harmônica’ interpretado por Charles Bronson. “Matar ou Morrer” é uma obra-prima absoluta, dos melhores filmes do gênero western, seminal e verdadeiramente inesquecível em sua mensagem e simplicidade. Will Kane permaneceu sozinho com sua consciência enquanto a cidade se uniu pelo medo e submissão ao poderoso Frank Miller e seus capangas neste primoroso estudo da covardia do ser humano num faroeste.


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